Luiz Melodia
Se alguém disser que Luiz Carlos dos Santos foi um dos maiores intérpretes e compositores da música popular brasileira, provavelmente haverá um estranhamento e certamente poucas pessoas irão concordar com a afirmativa. Mas a coisa muda completamente quando sabemos de que se trata de Luiz Melodia. músico nascido e criado no Estácio, no morro de São Carlos.

Nascido no berço do samba, Melodia era todo ouvidos à música boa, fosse qual fosse o estilo. Escutava boleros, música nordestina, adorava Stevie Wonder e passou a adolescência compondo e tocando sucessos da jovem guarda e bossa nova com o grupo “Os instantâneos”.
A mistura dessas experiências com sua vivência nas tradicionais rodas de samba e choro que frequentava com seu pai, Oswaldo Melodia, resultou num estilo único que chamou a atenção de um assíduo frequentador do morro do Estácio, o poeta Wally Salomão e de Torquato Neto. Foi através de Wally que Gal Costa conheceu Luiz Melodia e gravou “Pérola negra”. Pouco depois, foi a vez de “Estácio Holly Estácio”, na voz de Maria Bethânia.

O primeiro disco, Pérola Negra, veio em 1973, quando o músico tinha apenas 22 anos, e rendeu prestígio entre a crítica especializada. Ali coube de tudo: samba, choro, rock, forró, chanchada… Não foi um sucesso de vendas, mas Melodia pavimentou ali sua carreira e estabeleceu uma rede de admiradores que o seguiram até o fim de sua carreira.

Em 1975 venceu o Festival Abertura, promovido pela TV Globo, com a canção Ébano. No entanto, o autor desse e outros sucessos como “Juventude Transviada”, “Codinome Beija-Flor”, também amargou dificuldades com as gravadoras. Melodia, junto com outros artistas contemporâneos seus (como Jorge Mautner, Sérgio Sampaio e Jards Macalé), carregavam o rótulo de “malditos”, por andarem sempre nas bordas da indústria fonográfica. Segundo Macalé, “achavam que a gente era louco com aquele tipo de poesia. Um cara que diz uma coisa como ‘se quer matar-me de amor que me mate no Estácio’. Quer mais o quê?”.

Segundo seu parceiro, Renato Piau, “Luiz Melodia não era um cara comercial. As músicas dele não têm refrão, ele não gostava disso (e se uma ou outra têm é porque eu coloquei). Nas criações dele, não existia o lugar comum, sua própria linguagem como poeta era uma coisa pouco ortodoxa”.
Com uma extensa discografia (13 discos de estúdio), venceu o Prêmio da Música Brasileira em 2015, por Zerima (2014), primeiro disco de inéditas lançado após um hiato de 13 anos. Luiz Melodia faleceu em 4 de agosto de 2017, vítima de complicações no tratamento de câncer na medula. Contudo, sua voz única e a riqueza de sua obra não só continuam a ecoar pelas ruas do Rio e por todo o Brasil, como também vêm ganhando um reconhecimento maior do que ele teve em vida. Hoje, Luiz Melodia é celebrado como um dos nomes mais versáteis da música popular brasileira. E, mantendo um legado que vem desde Ismael Silva, as canções de Melodia se tornaram hinos e motivo de orgulho para o Estácio. Em 2023, o cantor foi homenageado pelo projeto Negro Muro, e agora estampa o bairro que ele cantou como ninguém
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Referências
D’ÂNGELO, Helô. Jards Macalé, Hyldon e Renato Piau relembram Luiz Melodia. Revista Cult, 4 de agosto de 2017.
luizmelodia.com.br
