Chegada de Villegagnon à Baía de Guanabara

No dia 10 de novembro de 1555, três embarcações francesas — dois galeões de guerra e uma nau de mantimentos — aportaram na Baía de Guanabara. Dali desceram cerca de seiscentos homens, comandados pelo vice-almirante da França, Nicolas Durand de Villegagnon. Diferente de outras expedições normandas, aquela não seria apenas uma incursão tocada por particulares: tratava-se de uma missão colonizadora, investida pelo próprio rei, Henrique II. Tinha início o projeto de fundar a França Antártica — assim chamada pelo fato dos navegadores pensar, erroneamente, que o Rio de Janeiro se localizava abaixo do Trópico de Capricórnio. 

Mapa da América do Sul representada com o Trópico de Capricórnio passando pela Baía de Guanabara. França. 1575. Obra de André Thevet. Wikimedia Commons

Desde meados da década de 1540, franceses e portugueses travavam uma intensa disputa pelo domínio da Baía de Guanabara. Mas na expedição de 1555 os gauleses vinham assentar morada. Segundo o franciscano André Thévet — cartógrafo oficial da comitiva —, os franceses foram “recebidos pelos habitantes da maneira mais hospitaleira possível”. A postura amistosa dos nativos não era sem razão: aqueles tupinambás sabiam da rivalidade entre maíras (os franceses) e perós (os portugueses). Em paralelo, os lusitanos eram inimigos mortais para maioria dos tupinambás que habitavam aquelas bandas, e os gauleses poderiam ser aliados contra esse inimigo comum. Cerca de quinhentos indígenas aguardavam os navegantes na praia; e os morubixabas — espécie de líderes de suas respectivas tabas — vinham aos poucos selar relações com os recém-chegados. 

Tupinambás fazendo uso de ferramentas de metal adquiridas dos franceses em troca da extração do pau brasil e outros gêneros da terra. Gravura da obra “Singularidades da França Antártica”, de Andre Thevét, publicado em 1558. Autor: Jean Cousin. Fundação Biblioteca Nacional

Por dois meses, os franceses examinaram a região em busca da melhor localidade para construção de um forte. A edificação era condição básica para o projeto colonizador, pois garantiria defesa contra os portugueses — e também contra os tupinambás, caso se rebelassem. Villegagnon decidiu instalar a fortaleza em uma pequena ilha, próxima do continente à uma distância de um tiro de canhão. A posição da ilhota era estratégica: de lá era possível controlar a entrada de embarcações rivais na Baía de Guanabara. Durante meses de incessante trabalho, foi erguido o Forte Coligny — assim batizado em homenagem ao maior entusiasta do projeto da França Antártica, o ministro dos Assuntos de Além-mar, Gaspard de Coligny. A fortaleza era localizada bem no centro daquela que os tupinambás chamavam de Serigipe, “ilha da água dos siris” — atual “Ilha de Villegagnon”. 

Mapa factício da Baía de Guanabara durante a presença francesa, em 1557 e 1558, com localização das aldeias da região e demarcando também o “Fort de Coligny”. França, c.1700. Fundação Biblioteca Nacional

Este texto foi elaborado pelo pesquisador Davi Aroeira Kacowicz do Projeto República (UFMG).