As laranjas da Sabina

As laranjas da Sabina – Pepa Delgado, 1904

Havia pouco mais de um ano que a escravidão fora abolida no Brasil. Sabina, uma mulher negra e pobre, trabalhava nas ruas do Rio de Janeiro como quitandeira. Seu ponto ficava no Largo da Misericórdia, em frente à Escola de Medicina. Expostas em tabuleiros sustentados por barris, as frutas aliviavam o calor diário de estudantes encasacados e metidos a republicanos radicais.

Em julho de 1889, as iguarias tiveram outra função: bananas, tomates e laranjas sarapintaram a diligência oficial do ministro da Fazenda, Visconde de Ouro Preto, quando cruzou a rua da escola. Na manhã seguinte, o subdelegado regional Jacome Lazary ordenou o fechamento da quitanda.

Poema satirizando o ocorrido. O Paiz, 23 de julho de 1889, n. 1750. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

O ato gerou indignação e estimulou a imaginação dos estudantes. No dia 25 de julho, com laranjas espetadas em bengalas, eles saíram em cortejo pelas ruas do Centro. À frente, um estandarte ostentava coroa feita de bananas e a frase “Ao Exterminador das Laranjas”. A passeata saiu do Largo da Misericórdia e percorreu a Rua Primeiro de Março até a Rua do Ouvidor.

A “manifestação das laranjas” na Revista Illustrada. Revista Illustrada, 27 de julho de 1889, n. 558. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Depois de aplaudir as redações de jornais republicanos, os manifestantes cruzaram a Rua Uruguaiana, encontraram os alunos da Politécnica no Largo de São Francisco, e percorreram o caminho de volta. Não houve confronto nem quebra-quebra. E quando alguém aproveitou o alvoroço para gritar impropérios contra Sua Majestade, os estudantes foram argutos o bastante para responder que aquela não era uma manifestação política, mas sim… agrícola.

A adesão popular e a repercussão na imprensa constrangeram o subdelegado Lazary, que pediu demissão. Sabina pôde retomar o ponto. E a imagem do Império, que já andava desgastada, ganhou mais um arranhão.

Nota do jornal O Paiz sobre os protestos. O Paiz, 26 de julho de 1889, n. 1753. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Este texto foi elaborado pelo pesquisador Danilo Araujo Marques do Projeto República (UFMG).