Cabeleiras e chapéus, espadas e bengalas

Entre os séculos XVII e XVIII, no sistema político conhecido como Antigo Regime, a nobreza utilizava a vida na corte para reafirmar seu prestígio e garantir a manutenção do status social. Festas, cerimônias, roupas luxuosas e grandes espetáculos funcionavam como instrumentos de sedução, reforçavam o poder dos nobres diante de seus súditos. Como nos explica a professora Mara Rúbia Sant’Anna, “a sociedade moderna instaura a aparência como campo privilegiado da exibição da superioridade”.

Figurino das becas dos doutores e bachréis em Direito, com a respectiva descrição, 1900. Fundação Biblioteca Nacional [icon1231191]

Ao longo de quase quinhentos anos, entre o surgimento da moda europeia e a sua consolidação industrial, nos já no século XIX, o vestuário de moda foi ditado pelos homens, que ocupavam, na política e na igreja, as posições de poder. No contexto, em que o poder era tornado espetáculo por meio de uma aparência exuberante, as estrelas da vida ritualística da corte eram as figuras masculinas: reis, nobres, chefes militares. Vale lembrar que a aparência diz respeito não apenas às roupas, mas também ao penteado, aos acessórios, às joias, ao gesto do corpo no mundo.

O mercado dos escravos, Henry Chamberlain, 1822. Os donos do poder no Rio de Janeiro dos vice-reis – aqueles que enriqueceram com o tráfico de homens, mulheres e crianças para o Brasil, arrancadas da África para serem escravizadas aqui – usavam roupas coloridas, confeccionadas em seda. Vestiam casaca ou redingote, e colete, gravatinha de renda, calças-curtas (ou calções), que modelavam a coxa, meias e sapatos de tacões (sapatos com salto), ornamentados com fivelas suntuosas. Gostavam do chapéu três-bicos, ou tricórnio, e do timão holandês, todo armado de papelão, forrado de seda e em forma de meia lua.

“A moda das fivelas nos sapatos variou bastante”, escreveu Luiz Edmundo, “não só quanto ao tamanho como quanto ao feitio, qualidade do metal e pedrarias empregados. Pelo fim do século, porém, de tal modo cresceram elas que os elegantes tinham que andar de mansinho, a fim de não tropeçar nos próprios pés. As meias, de vermelhas, passaram a brancas, de tal sorte criando os sapatos da mesma cor”.

As gravatas, de renda ou de linho bordado, muitas vezes eram brancas. Eram fixadas ao pescoço por pequenas fivelas, presas atrás do pescoço, sob a gola da casaca. Mantinham-se cheirosos com “resinas e folhas aromáticas, com as quais perfumavam também a sua roupa branca, particularmente cuidada, no informe de estrangeiros que nos visitaram, e muito azulada de tanto anil”.

Pela época do vice-reinado, ainda não era hábito os homens usarem calças compridas, que se tornaram hegemônicas no guarda-roupa masculino a partir do século XIX. Aliás, muito do que hoje é considerado como pertencente ao universo feminino, era comum ao guarda-roupa de homens e mulheres. As cores vibrantes, os bordados, os tecidos brilhosos, e também a maquiagem. Foi somente no século XVIII que as diferenças entre homens e mulheres na maneira de se vestir ganharam uma importância central na sociedade.

O homem elegante carioca no tempo dos vice-reis veste uma casaca do século XVIII, feita em brocado de seda, que faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional

Guiados por Luiz Edmundo, vamos acompanhar a ida do Sr. Provedor-mor da Câmara dos Defuntos e Ausentes ao cabelereiro. Nesse passeio, é possível ter uma ideia da indumentária masculina da elite que circulava pela cidade de São Sebastião. O Sr. Provedor-mor, vestindo sua casaca cor de pinhão e o colete amarelo gema de ovo, bordado de seda, precisa dar um trato na sua cabeleira postiça. Com a bengala e o chapéu três-bicos, chega à rua da Cadeia, atual rua da Assembleia, na loja do Sr. Evaristo, que se gaba de ter penteado o Marquês do Lavradio.

A função do cabeleireiro era cuidar das perucas, penteá-las, empoá-las, e não, como hoje, cuidar do cabelo natural. Durante o governo de D. Luiz de Vasconcelos tínhamos na cidade 29 lojas de cabeleireiros. No Brasil, o uso das perucas, tanto as masculinas como as femininas, foi insignificante. Mas, alguns notáveis da cidade, e suas mulheres, não abriram mão da moda. À saída, o provedor dos Defuntos e Ausentes não esqueceu os três sinais de tafetá: um sobre a asa do nariz, outro ao cantinho da boca e o último ao centro da testa. Este último passa a mensagem de autoridade e respeito… 

Os sinais de tafetá e as pinturas no rosto fizeram muito sucesso entre os cariocas, homens e mulheres. Havia a arte de saber colar os sinais: como e onde bem dispor as pintinhas no rosto. E todos eles tinham um nome: o da testa, por exemplo, chamou-se majestoso; o das fontes, próximo às orelhas, discreto; o que se colava sobre o pescoço, tentador; o da face, galante; beijocador era o do cantinho da boca; desatinado o que se colocasse sob os olhos. Sinal posto no canto do nariz era louquinho — ou atrevido sempre que se assentava bem na massa do nariz. Ao dos lábios chamava-se garrido, e ao que encobria o defeito, cobertor, sendo que havia, ainda o folgazão, que tapava a covinha da face, e o apaixonado que, ao canto do olho, servia para ressaltar-lhe o feitio.

O carioca do século XVIII não saía à rua sem levar, sob as dobras do seu capotão de saragoça, zombando dos alvarás d’el-rei, a sua fiel e protetora espada. Os alvarás restringiam-lhe o uso, mas todos a usavam, embora dissimuladamente. Muitas vezes, porém, os homens traziam as espadas desembainhada e nua na mão, sob o manto de pregas que o envolvia. Quando presa ao boldrié vinha do lado esquerdo, segundo a boa norma da cavalaria.

A aparência masculina era composta pelo traje e pelos acessórios, que eram itens obrigatórios. Por exemplo, fazia parte do vestuário dos homens a boceta, uma caixinha pequena, redonda ou alongada, usada para guardar fumo, rapé, moedas, joias e outros objetos do cotidiano. Algumas eram feitas de prata e aparecem nos inventários da época.

A espada foi outro acessório importantíssimo que fez parte da indumentária masculina no Antigo Regime. Com a mudança para o sistema republicano burguês, depois da Revolução Francesa e das revoluções industriais, foi paulatinamente substituída pela bengala. Luiz Edmundo nos lembra que “a bengala, e o bastão, foram de certo agrado e uso dos habitantes da cidade e bastante usados ao mesmo tempo que as espadas. A moda variava-lhes o tamanho e feitio; não obstante, os castões foram sempre belos e custosos. O do bengalão de Luiz de Vasconcelos, que está no retrato do Museu Histórico, e que talvez fosse obra de Mestre Valentim, é um primor”.

D. Luís de Vasconcelos e Sousa, Leandro Joaquim, década de 1780, Museu Histórico Nacional. O rosto é redondo e avermelhado de carmin, e sua expressão está em harmonia com os traços finos, lábios quase ausentes, apesar de levemente coloridos, e a discreta mosca na maçã do rosto, um sinal de tecido. Seu olhar é profundamente azul e um tanto quanto desconfiado, talvez por certo muxoxo em sua expressão facial.

O retrato a que se refere Luiz Edmundo é uma pintura a óleo, feita por Leandro Joaquim, de Luís de Vasconcelos e Sousa, vice-rei no Rio de Janeiro de 1779 a 1790. Segundo relato de estrangeiros que estiveram na cerimônia de comemoração do aniversário do príncipe herdeiro de Portugal no Rio de Janeiro, em 1787, “o vice-rei trajava uma túnica escarlate guarnecida de largos e ricos galões dourados”. Para a historiadora Maria Fernanda Bicalho, pode ser que a túnica com que Luís de Vasconcelos foi retratado nesta pintura seja a mesma descrita pelo capitão inglês. Chama atenção o anel com a imagem de D. Maria I na sua mão esquerda, o que denota compromisso, vassalagem e fidelidade à soberana. 

Detalhe do castão e anel de D. Luís de Vasconcelos. Realmente, o castão de sua bengala é um primor. As ramagens delicadas parecem talhadas em ouro e incrustadas com pedras preciosas.

D. Luís de Vasconcelos foi retratado vestindo um redingote vermelho, adornado com galões dourados. O colete, alto, é na cor marrom, e por baixo, a pintura minuciosa de Leandro Joaquim nos deixa ver, no plastrão e nos punhos, a transparência da renda fina. Ostenta sua cabeleira elegantemente penteada, esbranquiçada do pó, adornada com um laço de veludo preto.

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Fontes e referências

“Boceta”, Glossário de história luso-brasileira, Arquivo Nacional. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes-glossario/9-verbetes-iniciados-em-b/196-boceta

Casaca masculina”, século XVIII, Museu Histórico Nacional, número de registro 51542. 

D. Luís de Vasconcelos e Sousa”, Leandro Joaquim, década de 1780, Museu Histórico Nacional, número de registro 3489.

Elizabeth Wilson, Enfeitada de sonhos: moda e modernidade. Tradução Maria João Freire. Lisboa: Edições 70, 1989.

Henry Chamberlain, “The slave market”, 1822, Coleção Brasiliana Itaú. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/18494/the-slave-market

Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis (1763-1808). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.

Mara Rúbia Sant’Anna, Império: uma civilização nos trópicos. Série Brasil por suas aparências, vol. 2. Barueri: Estação das Letras e Cores, 2019.

“Provedores/ Provedorias dos Defuntos e Ausentes”, Dicionário da Administração Pública Brasileira do Período Colonial, Arquivo Nacional. Disponível em: https://mapa.an.gov.br/index.php/assuntos/15-dicionario/57-dicionario-da-administracao-publica-brasileira-do-periodo-colonial/190-provedor-provedoria-dos-defuntos-e-ausentes

Silvia Escorel, “Cultura negra no Rio de Janeiro no século XVIII”.

Silvia Hunold Lara, Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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