O capote dos homens e a mantilha das mulheres

O historiador Vinicius Cranek Gagliardo nos explica que o estabelecimento da sede do vice-reinado no Rio de Janeiro, em 1763, reforçou sua centralidade, que vinha acontecendo ao longo do século XVIII, tanto devido à posição estratégica da cidade em relação aos conflitos que ocorriam na região sul do Brasil, como pela situação de seu porto, o mais bem localizado para a exportação do ouro de Minas Gerais. “Entretanto”, ele afirma, “tal centralidade não atraiu somente a atenção de Portugal, atraiu também a cobiça de outras nações europeias, o que intensificou as ameaças aos interesses portugueses no Atlântico e à própria segurança da cidade e de seus habitantes, constantemente tomados pelo medo de uma invasão. A falta de esforços empreendidos para dotar o Rio de Janeiro de um poderio militar minimamente resistente deixava as defesas locais bastante frágeis para deter um ataque, fato que implicava na insegurança dos habitantes e em altercações com os estrangeiros visitantes. No entanto, a desordem das ruas não tinha apenas aí a sua origem: roubos, assassinatos e uma série de outras ações desordeiras foram registrados por quem esteve no Rio de Janeiro entre 1763 e 1808”. O período dos vice-reis foi descrito como um quadro de desordem e violência, Vinicius conclui.

[Trajes de brancos – 01], Carlos Julião. Fundação Biblioteca Nacional. [icon30306]


A Luiz Edmundo, um dos nossos guias no passeio pela moda carioca no século XVIII, não passou despercebido o olhar impressionado dos viajantes estrangeiros, “onde, por qualquer coisa se feria, por qualquer coisa se matava. As facas e os punhais andavam, sempre, fora das bainhas; as sarjetas, empoçadas de sangue. Choviam alvarás proibindo os capuzes, o uso de facas, de punhais. Ninguém queria saber de alvarás, todos traziam entre as dobras da saragoça o seu meio palmo de aço brilhante e rijo”. Facas, punhais, instrumentos pontiagudos e cortantes, disfarçados, levados por baixo das capas de saragoça, tecido grosso, feito de lã.

No tempo dos vice-reis e do rei, conta-nos Luiz Edmundo, “o traje popular do carioca na rua, não passava de um chapéu espanhol de feltro, cuscuzeiro, de copa e abas largas, sempre derreado sobre os olhos, nos pés alpercatas ou sandálias, sem meias, e o corpo indefectivelmente envolvido num capote, o que tornava a figura humana quase irreconhecível. Essa moda de embuço veio-nos de Portugal. O Rio dessa época devia impressionar com seu aspecto de carnaval e de mistério, pois que ao capote de embuço dos homens se juntava ainda a mantilha de bioco das mulheres”.

Senhoras brasileiras a caminho da missa, Henry Chamberlain, a partir de desenho de Joaquim Cândido Guillobel, c. 1820

O bioco, nome dado à mantilha usada para cobrir a cabeça e o rosto, era obrigatório para as senhoras brancas, nas raras ocasiões em que saíam à rua. A atividade social da mulher branca no período colonial praticamente se restringia à recatada missa. Iam embrulhadas em suas mantilhas de renda preta, no lusco-fusco da madrugada. As mantilhas aparecem em profusão no romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida, que se passa no tempo do rei, já no início do século XIX. 

“Este uso da mantilha era um arremedo do uso espanhol; porém a mantilha espanhola, temos ouvido dizer, é uma coisa poética que reveste as mulheres de um certo mistério, e que lhes realça a beleza; a mantilha das nossas mulheres, não; era a coisa mais prosaica que se pode imaginar, especialmente quando as que as traziam eram baixas e gordas como a comadre. A mais brilhante festa religiosa (que eram as mais frequentadas então) tomava um aspecto lúgubre logo que a igreja se enchia daqueles vultos negros, que se uniam uns aos outros, que se inclinavam cochichando a cada momento. Mas a mantilha era o traje mais conveniente aos costumes da época; sendo as ações dos outros o principal cuidado de quase todos, era muito necessário ver sem ser visto. A mantilha para as mulheres estava na razão das rótulas para as casas; eram o observatório da vida alheia”.

A comadre, desenho Francisco Acquarone para o romance Memórias de um sargento de milícias

É certo que podemos considerar, assim como fez o escritor Mário de Andrade, que Manuel Antonio de Almeida “se diverte caçoando, sem a menor intenção moral, sem a menor lembrança de valorizar as classes ínfimas. Pelo contrário, aristocraticamente as despreza pelo ridículo, lhes carregando acerbamente na invenção os lados infelizes ou vis”. Assim, a “mantilha pode ser poética na Espanha, entre nós é ‘a coisas mais prosaica que se pode imaginar’…”.

De todo modo, outras pessoas notaram um certo exagero no uso do luxo e da ostentação de roupas, objetos, e até de escravizados, como o viajante inglês Aeneas Anderson, que esteve poucos dias no Rio de Janeiro, em 1792: “Os moradores são muito preocupados com seu vestuário; cada classe do povo leva em grande conta o uso de uma espada e nem mesmo as crianças ficam sem ela. As mulheres também usam um grande manto de seda, com uma espécie de cauda que é levada por uma escrava, enquanto outra segura uma sombrinha aberta para preservar o rosto de sua senhora dos raios de sol”.

Luiz Edmundo descreve com detalhes os diversos tipos de mantos, capas e mantilhas com os quais as mulheres, nas vias públicas e na igreja, cobriam a cabeça, o rosto, os ombros e grande parte do corpo: “Para a rua, mantilhas de rendas ou mantilhas de pano, mantos, capas, aqueles em geral, simples côvados, em quadro, de qualquer fazenda grossa. Havia ainda os famosos josesinhos vermelhos, de gola e capuz”.

A figura feminina veste um josezinho, capa sem mangas feita em tecido vermelho. Na cabeça, ela usa lenço de cambraia engomada.

Vê-se uma certa variedade de tecidos – rendas, panos e fazendas grossas – e de modelos – mantilhas, capas, mantos simples, quadrados, e o gracioso josezinho vermelho, traje típico das classes populares de Portugal. Se, por acaso, veio à sua mente a imagem da Chapéuzinho Vermelho, você não se enganou. O josezinho era um tipo de capa sem mangas, com capuz e pouca roda, exatamente como aquele usado pela personagem do conto de fadas.

Sobre a cor vermelha – também chamada de encarnado, na época –, é importante lembrar que, durante o governo do marquês de Lavradio, entre 1769 e 1779, houve um incentivo maior à produção de corantes vermelhos e à criação da cochonilha, inseto usado na fabricação desses pigmentos. Isso aconteceu porque o corante tinha grande importância, tanto para a produção de tecidos quanto para a indústria alimentícia.

Em 30 de agosto de 1810, dois anos após a transferência da corte portuguesa para o Brasil, d. João emitiu uma ordem régia que determinou a proibição do uso desses mantos, “proibindo ‘solenemente o andarem as mulheres nessa cidade embuçadas em baetas’”. No final do século XVIII, o Rio de Janeiro já era uma cidade bastante violenta. Nesse contexto, a prática do uso dos capotes, das capas e das mantilhas tornava a roupa proteção e esconderijo. E dava à paisagem humana da cidade, nas palavras de Luiz Edmundo, “aspecto de carnaval e de mistério”:

“Uma verdadeira cidade de mascarados, o Rio colonial dos vice-reis, onde os vultos misteriosos deslizavam, e onde, apenas, os olhos curiosos, por entre a frincha precária formada pela fazenda dos mantos e mantilhas em pregas, moviam-se inquietos, iluminados, como que a indagar da sombra discreta de seus biocos: – Você me conhece?”.

*

Fontes e referências

“Baeta, droguete e saieta”, Glossário de história luso-brasileira, Arquivo Nacional. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes-glossario/9-verbetes-iniciados-em-b/157-baeta-droguete-e-saieta

Henry Chamberlain, “Brazillian Ladies going to Mass”, c. 1820, a partir de Joaquim Cândido Guillobel, Pinacoteca do Estado de São Paulo. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19952/brazillian-ladies-going-to-mass

“Côvado”, Glossário de história luso-brasileira, Arquivo Nacional. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes-glossario/14-verbetes-iniciados-em-c/1366-covado

“Encarnados”, Glossário de história luso-brasileira, Arquivo Nacional. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/glossario/index.php/verbetes-glossario/10-verbetes-iniciados-em-e/855-encarnados

Julio Dantas, “Los tipos populares de Portugal”. La Nación, revista semanal. Buenos Aires, 13 de abril de 1930. Disponível em: https://ahira.com.ar/ejemplares/la-nacion-revista-semanal-n-o-41/

Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis (1763-1808). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.

Manuel Antonio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. Introdução de Mário de Andrade, ilustrações de Francisco Acquarone. São Paulo: Livraria Martins, 1941. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/1601

“Mulheres a caminho da missa”, equipe Brasiliana Iconográfica, 20/01/2021. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/20251/mulheres-a-caminho-da-missa

Silvia Hunold Lara, Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Vinicius Cranek Gagliardo, “O Rio de Janeiro dos vice-reis: uma cidade em desordem”. Vozes, Pretérito & Devir: revista de História da UESPI, v. 1, n. 2, (2013). Teresina, setembro de 2013. Disponível em: https://revistavozes.uespi.br/index.php/revistavozes/article/view/14/16

.

Patrocínios

.

Parceiros

Realização

Pular para o conteúdo