Como se vestiam as mulheres no Rio de Janeiro dos vice-reis e do rei
Quando se pensa na história do Brasil colônia, são muito comuns os relatos de cronistas e viajantes que destacam a riqueza e o luxo das elites nas vilas e cidades da América portuguesa. No Rio de Janeiro do século XVIII, conta-nos Luiz Edmundo, a esposa de um funcionário da Metrópole estarrecia o povo ao chegar à Igreja da Cruz, descendo, elegante e espalhafatosa, da sua serpentina de jacarandá e belbute. “Olhai-lhe a cabeça”, ele diz, “onde se amarra um penacho amarelo gema de ovo, alto como um coqueiro. A polheira de seda é verde periquito, e o guarda-pé tirando a vermelhão da China”.

No Rio de Janeiro colonial, as mulheres gostavam de vestir cores fortes e exageradas, como amarelo, verde e velho, ou azul e violeta, além dos tecidos estampados com desenhos de ramagens douradas. Na aquarela realizada por Carlos Julião, a mulher veste um grande casaco rosa enfeitado com galões dourados, que cobre quase toda a sua roupa. Vemos a barra da saia estampada e seus sapatos de salto com fivelas, além das meias brancas. A gola e o punho do casaco têm a mesma estampa da saia: flores rosas e ramagens verdes sobre fundo amarelo. O homem que a acompanha usa um casaco roxo, com galões prateados.
Seguindo a moda feminina europeia naquele período, as senhoras da elite usavam corpetes ajustados e decotados, saias amplas e armadas que cobriam os pés, mangas curtas e volumosas, e muitas joias: brincos, colares, pulseiras, anéis. Algumas, gostavam de perucas, como aquelas da rainha francesa Maria Antonieta. Se hoje as estrelas do mundo fashion acham que estão “abafando” com seus looks mirabolantes no tapete vermelho do Met Gala, elas não conhecem as histórias da moda no Rio de Janeiro!

A historiadora Silvia Hunold Lara narra o relato de viajantes europeus que passaram pela cidade de São Sebastião no século XVIII e se espantaram com o hábito das pessoas serem transportadas em cadeirinhas, palanquins, serpentinas, e até mesmo redes, por homens negros escravizados. Por exemplo, em 1748, o capitão de um navio francês anotou em seu diário: “Esta cadeira é seguida por um ou dois negros domésticos, vestidos de librés mas com os pés nus. Se é uma mulher que se transporta, ela tem frequentemente quatro ou cinco negras muito bem vestidas; elas são enfeitadas com muitos colares e brincos de ouro”. Outro estrangeiro, dessa vez inglês, que esteve no Rio de Janeiro em 1792, afirmou que as mulheres usavam “um grande manto de seda, com uma espécie de cauda que é levada por uma escrava, enquanto outra segura uma sombrinha aberta para preservar o rosto de sua senhora dos raios de sol”.

No contexto do Brasil colonial e escravista, o luxo, o poder e as hierarquias sociais eram ostentadas por meio da exibição de mulheres escravizadas ricamente vestidas, o que, segundo Silvia Hunold Lara, “parece ter sido especialmente um costume das senhoras”. Esses conjuntos de mulheres compunham verdadeiros séquitos, “eram ornamentos necessários no ritual das exibições públicas, nas festas religiosas ou nas ocasiões em que se faziam ou se recebiam visitas de cerimônia”, ela afirma.
As mulheres brancas tinham poucas atividades sociais e quase nunca saíam de casa. Sigrid Porto de Barros relata uma anedota que ocorreu já no final do século XVIII. Foi em vão que o “Conde de Bobadela tentou conseguir a participação feminina nas festividades programadas para homenagear a oficialidade francesa em visita de cordialidade à cidade do Rio de Janeiro. Não havendo um só chefe de família concordado com a presença de suas filhas ou esposas no baile, teve o governador que lançar mão de um ardil, fazendo surgir no salão de festas, alguns jovens em ‘travesti’. Mas logo a farsa foi descoberta pelos franceses, que reputaram como muito mau gosto, o expediente de vestir rapazinhos “à Pompadour” e fazê-los dançar desgraciosamente pelo salão”.
Nas raras vezes em que saíam às ruas, as senhoras brancas nunca estavam sozinhas. Suas chances de participação na vida pública estavam restritas a dias santos e outras festas religiosas, como procissões, celebrações da Semana Santa ou funerais luxuosos. Nessas ocasiões, costumavam aparecer cobertas por rebuços, longas mantilhas de renda preta que envolviam o corpo e ajudavam a manter a discrição e o recato esperados das mulheres naquele período.

Os trajes das mulheres desenhada por Joaquim Cândido Guillobel e Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive se assemelham à descrição da roupa da comadre narrada por Manue Antônio de Almeida nas Memórias de um sargento de milícias: “O seu traje habitual era, como o de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou de osso. Nos dias dúplices, em vez de lenço na cabeça, o cabelo era penteado, e seguro por um enorme pente cravejado de crisólitas”.

Além do caráter devocional que a mantilha preta apresenta, a composição dos trajes sugere relações com práticas católicas de luto, possivelmente viúvas. A “mullher vestida de negro” representada por Guillobel parece querer se proteger do artista quando puxa a capa sobre o corpo, cobrindo parte de seu vestido. O véu de renda que cobre sua cabeça e parte do colo permite que vejamos, parcialmente, o seu rosto. Esse efeito de velamento cria uma aparência de reserva e contenção, o que reafirma a ideia do luto.
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Fontes e referências
Carlos Julião, Riscos illuminados de figurinhos de brancos e negros dos uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio, aquarelas. Introdução histórica e catálogo descritivo Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional; Ministério da Educação e Cultura, 1960. Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/items/65c35ad9-e800-4792-951f-4935ca2c9199
Joaquim Cândido Guillobel, “[Mulher vestida de negro]”, Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/113414-mulher-vestida-de-negro
Joaquim Cândido Guillobel, “[Senhora viajando na rede]”, Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/113403-senhora-viajando-de-rede
Joaquim Cândido Guillobel, “[Serpentina de luxo]”, Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/113427-serpentina-de-luxo
Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive, “Mulher de mantilha”, c. 1840, gravura, Instituto Moreira Salles. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19116/n-5-mulher-de-mantilha
Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis (1763-1808). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2000.
Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, “A indumentária no Rio de Janeiro: séculos XVI a XIX”. O acervo iconográfico da Biblioteca Nacional: estudos de Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha. Renata Santos, Marcus Venicio Ribeiro e Maria de Lourdes Vianna Lyra (org.). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasgerais/drg1336257/drg1336257.pdf
Manuel Antonio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. Introdução de Mário de Andrade, ilustrações de Francisco Acquarone. São Paulo: Livraria Martins, 1941. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/1601
Silvia Hunold Lara, Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Sigrid Porto de Barros, “A condição social e a indumentária feminina no Brasil-colônia”
Silvia Escorel, “Cultura negra no Rio de Janeiro no século XVIII”
