A galeria Rio na Moda apresenta uma coleção inédita de memórias da história da moda carioca. Dos povos originários que habitavam o território onde hoje é a cidade e da tensão entre o nu e o vestido, até as modistas, os costureiros e os estilistas que marcaram a moda no Rio de Janeiro ao longo do tempo.
No decorrer das salas, o público terá a oportunidade de relembrar ou conhecer episódios e características marcantes que fazem parte da memória da moda no Rio, como a polêmica da jupe-culotte no início do século XX, o biquíni de Leila Diniz nos anos 1960 e a moda de cria que ganha força nos últimos anos. Um dos destaques da nova galeria do Rio Memórias, é o resgate da trajetória do costureiro Hugo Rocha: ele foi uma figura importante para a moda carioca, um homem negro, quase totalmente esquecido pela historiografia.
Mais do que contar uma história linear, a galeria Rio na Moda oferece ao público um mapa crítico e estético da cidade, estabelecendo pontes com outras galerias do site Rio Memórias. A moda, aqui, é tratada como arquivo sensível do Rio de Janeiro. Um arquivo feito de heranças indígenas, influências coloniais e europeias, saberes afro-brasileiros, invenções populares, circuitos de luxo, improvisos cotidianos, políticas do corpo e estratégias de sobrevivência. A galeria Rio na Moda apresenta um percurso que busca evidenciar continuidades, tensões e rupturas na construção das aparências sob a luz carioca.
Curadoria: Carolina CasarinEsta sala traz uma reflexão, de caráter mais filosófico e antropológico, sobre o ato de vestir e a tensão entre o nu e o vestido – que ressoa o cru e o cozido de Claude Lévi-Strauss. Aborda a indumentária indígena dos povos originários que viviam no território do Rio de Janeiro e a importância do retorno de um dos sagrados mantos tupinambá à sua terra de origem. Trata também de uma discussão sobre o conceito de moda, contextualizando teórica e historicamente as diferenças entre o vestuário tradicional e o vestuário de moda. E apresenta a moda indígena contemporânea, especialmente aquela produzida por Dayana Molino, fundadora do Nalimo Ateliê, marca na vanguarda da representação indígena no Brasil.
Nesta sala são exibidos alguns modos de vestir da população carioca entre meados do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, quando o Rio se consolidou como centro político do Brasil colonial. Foram utilizados como inspiração os clássicos livros do memorialista Luiz Edmundo e do autor oitocentista Manuel Antonio de Almeida, além dos inúmeros relatos e desenhos dos viajantes europeus que passaram pela cidade no tempo dos vice-reis e do rei.
Numa sociedade de hierarquias rígidas, moldada pela escravidão, pela moral católica e pelas normas do Antigo Regime, as aparências eram constantemente vigiadas. Os homens circulavam protegidos por capotes, chapéus, cabeleiras, espadas e bengalas, compondo uma masculinidade pública feita de autoridade, etiqueta, distinção e controle.
Já para as mulheres brancas da elite, senhoras recolhidas atrás das janelas, o ideal dominante era o da clausura doméstica: aparecer pouco, sempre acompanhada e invariavelmente coberta. A mantilha, o rebuço e outras peças de vestuário que cobriam o corpo regulavam a presença feminina na cidade.
Ao contrário do que uma imaginação forjada nos meandros do racismo pode nos fazer crer, a população negra e mestiça do Rio de Janeiro colonial não era formada apenas por pessoas vestidas em trapos ou usando librés de serviçais, mas sim de uma diversidade de aparências e uma série de distinções sociais que se manifestavam na indumentária. Esta sala apresenta a moda que era feita por mulheres livres, libertas e escravizadas, que enfeitavam as ruas com seus ofícios, seus panos, seus turbantes, suas saias, seus gestos, fazendo da roupa um campo de negociação.
Representações visuais de cenas cotidianas e de determinados costumes da cidade mostram, na população de origem africana, uma grande diversidade de modos de vestir, marcados por diferentes condições sociais, profissões e maneiras de construir a própria aparência. As personagens femininas que aparecem nas aquarelas e nos desenhos são todas elegantes, mesmo aquelas mais submetidas à violência da sociedade escravista.
Essas imagens ajudam a desmontar uma visão eurocêntrica da história da moda brasileira. Não podemos considerar moda apenas aquilo que vinha da França ou das elites brancas. Populações negras também criaram linguagens visuais sofisticadas, que combinavam tecidos, cores, joias, amarrações e adornos. Assim, essas mulheres participaram ativamente da formação da moda carioca.
Nesta sala, vamos acompanhar o processo histórico que ocorreu no Brasil, a partir da chegada da família real portuguesa, chamado de reeuropeização, ou aburguesamento, e que impactou profundamente a cultura das aparências. Em se tratando de moda masculina, como quase sempre acontece quando a burguesia entra em cena, o colorido foi substituído por uma respeitável cartela de cinzas, pretos, marrons e azuis escuros.
Na sociabilidade efervescente do Segundo Reinado, a moda passou a ser comentada, ironizada e observada como espetáculo. A literatura romântica e realista revela como a moda se tornou um signo importante: vestidos, fraques, chapéus e luvas tecem a crônica da cidade e comunicam ambição e posição de classe.
Na virada do século XIX para o XX, inspirada pelas reformas urbanísticas colocadas em prática em Paris, a capital federal quis se reinventar. O Rio de Janeiro viveu uma fantasia cosmopolita. João do Rio entendeu como poucos a dinâmica dessa cidade-espetáculo, foi um dos grandes intérpretes da aparência carioca. Por isso, aqui será apresentada a maneira como ele colocou em cena – em sua obra e em seus próprios modos de vestir – a cidade como passarela e teatro social.
A abertura da Avenida Central, a inauguração do Teatro Municipal, as vitrines sofisticadas e os salões elegantes projetaram uma cidade que desejava ser moderna e civilizada. Mas que varria para debaixo do tapete os conflitos e as exclusões. Bastou uma saia-calça para a sociedade descobrir que o corpo feminino reivindicava, além de elegância, autonomia. Nada mais carioca, e nada mais moderno, do que uma roupa transformar a rua em debate público.
Os jornais e revistas com suas colunas sociais, crônicas, ilustrações e fotografias ensinaram o público a olhar, desejar, julgar e interpretar as aparências. A imprensa foi decisiva para transformar os modos de vestir em cultura de moda. Esta sala é dedicada a apresentar como a imprensa ajudou a colocar a moda na boca e no bolso do povo, tornando-a assunto de conversa e objeto de consumo.
Desde o fim do século XIX, a imprensa ilustrada ganhou força no país. Revistas cada vez mais sofisticadas iam surgindo, entrelaçando moda, consumo e celebridades. A revista O Cruzeiro, lançada em 1928, foi a pioneira, nela Alceu Penna criou suas célebres “Garotas”, jovens desenhadas que divulgaram um ideal de mulher moderna e urbana, que aparentava desenvoltura, mas, na verdade, reproduzia uma moral de classe e controle. Depois surgiram outras publicações como Manchete e Joia que seguiram na mesma linha.
Mas, falar sobre moda e imprensa não se limita a debater apenas o que se vestia, mas também quem podia aparecer, ser fotografado, desenhado e transformado em imaginário carioca. A moda dos malandros da Lapa, do terno claro, do chapéu e do sapato bicolor, que a imprensa perseguiu e, ao mesmo tempo, ajudou a imortalizar. Ou a imagem do pijama usado por Getúlio Vargas ao se suicidar, em 1954, difundida à exaustão: uma peça íntima que se transformou em documento político.
Entre as décadas de 1950 e 1970, ser reconhecido como criador de alta-costura exigia mais do que talento técnico: era preciso construir prestígio e formar uma clientela exclusiva, disposta a investir em peças confeccionadas artesanalmente, com atenção individualizada e alto valor. Esta sala é dedicada aos diversos profissionais que, apesar das dificuldades, conseguiram desenvolver trajetórias relevantes na alta moda carioca. Nomes como José Ronaldo, Elza Haouche, Guilherme Guimarães, Zuzu Angel e Hugo Rocha contribuíram para consolidar o Rio de Janeiro como um cenário de criação sofisticado e voltado à exclusividade.
A atuação desses criadores oscilava entre a influência da moda francesa e a busca por uma linguagem nacional independente. Havia um acordo tácito entre profissionais e clientes de que a França ditava as regras da elegância. Nesse cenário de distinção social, a produção de moda do Rio de Janeiro e de São Paulo dependia da proximidade com os lançamentos de Paris para legitimar-se perante as elites locais. Entretanto, “havia chegado o momento de o Brasil ter seus próprios criadores de moda – de alta moda, sob medida. Quem assinaria, por exemplo, a moda desfilada nas passarelas de um evento como o Miss Elegante Bangu?”.[1] A demanda por autoria nas passarelas era evidente: as roupas precisavam carregar uma assinatura própria, provando que a sociedade brasileira era capaz de projetar seus próprios nomes de destaque no cenário da moda.
Esta sala apresenta Hugo Rocha, um personagem-chave, mas ainda pouco estudado, da moda carioca. Formado no universo da moda sob medida, Rocha manteve-se atento à juventude, às butiques, à vida noturna e aos palcos. Como um dos raros homens negros a atuar na alta-costura carioca daquele período, destacou-se por sua versatilidade: foi um profissional renomado, proprietário de uma maison no Leblon, fundou butiques em Copacabana e Ipanema, e criou figurinos memoráveis para espetáculos teatrais e shows musicais.
Hugo Rocha atuou em diversas frentes do sistema da moda, sem deixar de lado o modo de ser e agir da mulher moderna. Criou uma visualidade sofisticada e insolente, sob medida. Sua fama alcançou destaque no circuito da moda carioca, na imprensa, no show business, entre mulheres da alta sociedade e artistas. Nas palavras de Lélia Gonzalez, a memória de Hugo Rocha evidencia “da maneira mais didática e prazerosa”, a maneira como as pessoas negras são “sujeito de sua própria história e de sua importância na construção não só deste país como na de muitos outros das Américas”.
O Rio nunca coube inteiramente nas regras que tentaram lhe impor. E a moda carioca nunca foi apenas a fantasia afrancesada da elegância oficial. Ela sempre esteve nas ruas, no comércio, nas mulheres que trabalhavam, nas modistas, costureiras, lavadeiras, vendedoras, nas pessoas libertas e escravizadas que cuidavam, lavavam, costuravam e faziam circular a moda carioca.
Nesta sala, o assunto é o “Comércio de moda no Rio de Janeiro”, história que começa muito antes das lojas elegantes na rua do Ouvidor. No século XIX, mulheres negras ganhadeiras, que vendiam alimentos, tecidos, adereços e prestavam serviços, muitas vezes de costureiras, escreveram a história da moda carioca com tabuleiros, panos, saias, torços, joias e amuletos.
Até meados do século XX, o centro do Rio foi o local onde se concentraram as lojas que vendiam novidades importadas, especialmente aquelas vindas de Paris, ou adaptações criadas por mãos locais. Nesse contexto, a Casa Canadá consolidou um ideal de consumo de luxo no Rio de Janeiro. Mais do que uma loja, tornou-se uma instituição do bom gosto.
A partir dos anos 1960, a zona Sul deslocou com força parte importante da cena. Surgiram as butiques em Copacabana, Ipanema e Leblon. Praia, juventude e prêt-à-porter. Atualmente, ateliês mantêm viva a moda sob medida. Ao mesmo tempo, feiras, brechós e vendas online movimentam o comércio onde a moda autoral, das marcas independentes, pode acontecer. A Feira Preta, embora tenha nascido em São Paulo, é fundamental, porque traz para os holofotes criações de moda feitas por pessoas negras.
