Um nome na institucionalização da moda brasileira
Hugo Rocha desempenhou papel fundamental nas primeiras iniciativas de organização corporativa e profissional da alta-costura no país. Ele participou ativamente dos movimentos de consolidação e visibilidade do setor, em um momento de transição marcado pela expansão industrial, pelo avanço da confecção de roupas prontas e pelo surgimento dos primeiros cursos acadêmicos de estilismo.
Em maio de 1970, integrou o 1º Encontro dos Grandes da Alta Costura no Brasil, em Porto Alegre, evento liderado pelo renomado estilista português Nazareth. O projeto visava estruturar a Associação da Alta Moda Brasileira nos moldes da prestigiosa Chambre Syndicale de la Couture Parisienne. Embora o encontro tenha despertado grande entusiasmo e o apoio inicial de governos e indústrias têxteis, a iniciativa não prosperou. Segundo o criador italiano Luciano Baron, a união da categoria profissional mostrou-se um desafio complexo, impedindo a continuidade anual do evento.

Em novembro de 1972, Rocha apresentou sua coleção na Semana Brasileira da Moda, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), sob o patrocínio da recém-criada Sociedade Brasileira de Alta Costura. Na ocasião, sua ousadia estética ao apresentar releituras modernas de “baianas estilizadas” causou controvérsia entre os criadores mais conservadores, que protestaram afirmando que “alta-costura não é folclore”.
Esse episódio evidencia o pioneirismo de Rocha ao romper com a dependência estrita dos padrões europeus de elegância. Em suas criações, elementos ornamentais e formas inspirados nas matrizes estéticas e religiosas afro-brasileiras ganharam status de alta-costura. O estilista promoveu um deslocamento histórico: em vez de buscar legitimação exclusiva em Paris, passou a fundamentar sua moda nas tradições, no candomblé e na cultura popular brasileira.

Esse diálogo com a cultura afro-brasileira manifestou-se no icônico editorial de dezembro de 1972 do caderno Ela (O Globo), que associou as roupas brancas, as rendas e os colares de Rocha às celebrações em homenagem a Iemanjá. A reportagem, ilustrada por renomados fotógrafos da época, inseriu as referências das religiões de matriz africana, historicamente marginalizadas, no prestigiado circuito editorial e de exportação de luxo.
Esse movimento de vanguarda coincidiu com um período de profundas transformações sociais para a mulher brasileira nos anos 1970, impulsionadas pela difusão da pílula anticoncepcional (1962), pelas alterações jurídicas do Estatuto da Mulher Casada (1962) e pela aprovação da Lei do Divórcio em 1977. Enquanto o regime militar impunha forte repressão e conservadorismo de costumes, a moda de Rocha traduzia os anseios de liberdade e autonomia feminina.
O guarda-roupa da mulher elegante não precisava mais atender a uma agenda repleta de compromissos sociais, com uma etiquetada rígida. Como disse o próprio Hugo Rocha à jornalista Norma Couri em setembro de 1973: “A costura é de curtição e de criação, porque a moda está aberta para tudo. Já não há mais a roupa de ocasião. A pantalona serve tanto para a recepção de manhã como para o teatro à noite e às vezes até para o trabalho”.

Após uma viagem ao Nordeste no final de 1972, fascinado pelas rendas cearenses, o criador estruturou sua famosa “linha baiana” voltada para a exportação aos Estados Unidos. Suas criações demonstravam que a identidade brasileira na moda não se limitava à reprodução de cópias internacionais, mas residia na valorização e sofisticação das técnicas artesanais locais. “Acho que a roupa da baiana tradicional é uma fonte inesgotável de ideias para a moda contemporânea”, ele afirmou.
Mesmo em períodos de forte influência de silhuetas internacionais, como a voga dos vestidos-saco e das saias Chanel em 1975, Rocha manteve-se fiel à sua identidade autoral. Em abril daquele ano, lançou uma aclamada coleção caracterizada por longos translúcidos e bordados sofisticados, unindo musselinas em tons contrastantes de preto e branco, pelerines e aplicações orgânicas de coral e conchas.

Entre os destaques da coleção figurava um vestido em linho rústico preto e branco ornado com bordado Richelieu em formato de girassol; um modelo em jérsei preto e branco de corte diretório acompanhado por pelerine em cetim; um romântico vestido em renda branca com saia em pontas e acabamento em rolotês de organdi e um sofisticado longo de organza branca com transparências estrategicamente disfarçadas por aplicações de conchas, pastilhas e placas prateadas.
O costureiro consolidou-se como um dos nomes mais singulares e bem-sucedidos da moda carioca justamente por não se deixar conduzir passivamente pelas tendências francesas. “Sem ser uma roupa de luxo desmesurado, esta moda de Hugo Rocha traz um pouco de novidade para os guarda-roupas cariocas”, conclui a matéria do Jornal do Brasil.
As rendas do Ceará, os volumes da roupa da baiana, os bordados, os babados, as túnicas e os colares eram elementos reconhecíveis da cultura brasileira, aplicados nas criações de moda. O gesto era inovador porque lançava uma modernidade que se afirmava pela reelaboração de formas, materiais e símbolos presentes na experiência social brasileira. Hugo Rocha levou, com ousadia e coragem, a roupa da baiana e os signos das religiões de matriz africana para o centro da moda brasileira.
