O mundo do espetáculo

Hugo Rocha transitou com brilho e naturalidade pelo cenário artístico de sua época, estabelecendo-se como um dos figurinistas mais solicitados do teatro, da música e da televisão. No final dos anos 1960, ele integrou a equipe pioneira da TV Globo, sendo responsável pela imagem de atrizes que despontavam na cena nacional, como Betty Faria, Márcia de Windsor, Neuza Amaral e Marina Montini.

Em 1971, Eliana Pittman lançou o show “Eliana Cravo e Canela”, todo ele criado e concebido pela própria cantora, que assinou o roteiro do espetáculo. Dirigido por Regis Cardoso, “Eliana Cravo e Canela” estreou no Rio de Janeiro no Teatro Glória. “O guarda-roupa, com dois trajes do francês Givenchy, um de Luiz de Freitas e outro de Hugo Rocha, empresta à beleza plástica do espetáculo uma grandeza que enche os olhos da plateia. Só vendo para sentir. Uma apoteose de gala para o encerramento de 1971”. O Cruzeiro, 17/11/1971

O estilista também desenvolveu parcerias estreitas com grandes intérpretes da MPB, incluindo Eliana Pittman, Elizeth Cardoso e Elza Soares. Em novembro de 1965, a revista O Cruzeiro destacou o papel de Rocha na consagração de Elza Soares como uma das personalidades mais elegantes do país. Entre os modelos memoráveis desenhados para a cantora, destacavam-se um tubinho azul bordado em pedrarias, um vestido de renda rosa com gola canoa e mangas translúcidas, e uma peça com saia de franjas ornamentada com bordados de alto brilho. Roupas que seguem o melhor estilo Hugo Rocha.

“Elza Soares, mulata de 400 bossas”, reportagem de Rosinha Sarda, fotos de Jorge Audi, revista O Cruzeiro, 20/11/1965

No teatro, Rocha assinou os figurinos da comédia As Inocentes do Leblon (1965), peça dirigida por Sergio Viotti com trilha sonora original de Baden Powell e Billy Blanco. O crítico teatral Yan Michalski elogiou calorosamente o trabalho do estilista, definindo o sofisticado guarda-roupa da peça como o ponto alto do espetáculo. O figurino da atriz Leina Krespi no papel de Sandra, composto por um elegante habillé em tons dramáticos de roxo e decotes profundos, marcou época. Dois anos mais tarde, ele assinou os figurinos da montagem de O Cavalo Desmaiado (1967), de Françoise Sagan, protagonizada por Rubens de Falco e Márcia de Windsor. Em 1971, ao lado de Dulcina, na direção, e de Fernando Pamplona no cenário, criou os figurinos da peça Um vizinho em nossas vidas, uma simpática comédia de boulevard.

“O vizinho sedutor de Dulcina”, Caderno B, Jornal do Brasil, 09/05/1971

Em Revista do Rádio, show estrelado por Ângela Maria e Cauby Peixoto em 1976, os figurinos de Hugo Rocha integravam uma arranjo cênico marcado pela memória do rádio, pelo brilho da canção popular e pela teatralização da música brasileira. Foi a primeira vez que Ângela e Cauby se apresentaram juntos. A encenação, que ficou em cartaz na boate Vivará, no Leblon, contava com a orquestra All Star sob a regência do maestro Carioca, unia de forma harmoniosa o brilho da canção popular e a sofisticação visual das vestimentas.

“Um tipo que virou estrela”, texto de Cleusa Maria, Caderno B, Jornal do Brasil, 29/02/1980

Uma de suas últimas e mais icônicas colaborações artísticas deu-se com o cantor Ney Matogrosso no aclamado show Seu Tipo, que estreou no Teatro Carlos Gomes em fevereiro de 1980. Rocha desenhou dois figurinos complementares que se tornaram fundamentais para a dinâmica cênica da apresentação: um terno clássico de panamá branco, confeccionado em algodão encorpado, composto por paletó, colete, calça e gravata coordenada e uma audaciosa malha colante branca que deixava as costas e o peitoral do cantor inteiramente expostos.

Ney Matogrosso usa o terno de panamá branco no show Seu Tipo, figurinos de Hugo Rocha, Teatro Carlos Gomes, 1980; “Seu Tipo, 1980”, Ney Matogrosso

A transição de roupas ocorria de forma teatral no próprio palco, atrás de um biombo iluminado projetado pelo cenógrafo Claudio Tovar. “Eu disse para o Hugo Rocha que queria um terno, mas um terno cheio de macetes, que eram para funcionar em cena”, conta o próprio Ney. O figurino foi parte essencial da metamorfose que acontecia no show, culminando com o artista vestindo a máscara e as luvas de metal criadas pela designer Mary Iashimoto para a interpretação dramática da canção “Um índio”.

Ney Matogrosso, vestido com a malha colante branca, usa máscara e luvas de metal criadas e executadas por Mary Iashimoto no show Seu Tipo, Teatro Carlos Gomes, 1980

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