Butique e prêt-à-porter

Hugo Rocha não foi apenas um costureiro tradicional, preso ao esquema da moda sob medida para as senhoras da elite. Ele entendeu cedo que vivia numa sociedade em transformação na moda carioca. No Rio de Janeiro da segunda metade dos anos 1960, a vida noturna, a praia, a bossa nova e a circulação em Ipanema demandavam roupas práticas, abrindo espaço para a moda pronta.

Em outubro de 1965, mostrou sua primeira criação de roupas prontas para vestir, “com confecções que nada ficam a dever às criações de alta-costura”. Nos trajes, que seriam vendidos em lojas e butiques, predominaram as cores branco, rosa, preto, amarelo e vermelho, além de várias tonalidades de bege. As roupas apresentavam ainda a grande novidade de serem feitas em linho adamascado de toalha de mesa e renda de nylon, reafirmando sua assinatura ao usar materiais de diferentes procedências.

Croquis desenhados por Diana dos modelos criados por Hugo Rocha para o segundo aniversário da coluna Passarela, de Gilda Chataignier, publicada no Jornal do Brasil. As roupas foram desfiladas na Sociedade Hípica Brasileira. “Tendo por objetivo mostrar ao público que aqui veio e às leitoras de Passarela que o algodão é o tecido perfeito para o nosso clima e para as estações que agora começam, é que organizamos este desfile com modelos de Hugo Rocha – nome dos mais famosos de nossa alta-costura – e tecidos da Companhia Petropolitana”. Vestidos tubinho ou com corte diretório, saias de cintura baixa com pregas fartas e dançantes, palazzos-pijamas com calça boca larga, além pluminhas, frufrus, rendinhas, margaridas bordadas ou aplicadas, crochê, bordado inglês, sianinhas, botões redondinhos e passamanarias, nas cores verde-limão, azul, rosa e roxo, foram as coordenadas da coleção. Três dias depois, em 23 de outubro, no dia de seu aniversário, Hugo Rocha apresentou alguns desses modelos no Jornal Feminino, da TV Excelsior. “Algodão faz verão”, texto de Gilda Chataignier, desenhos de Diana, coluna Passarela, Caderno B, Jornal do Brasil, 20/10/1964

A consolidação de seus negócios deu-se com a inauguração, em dezembro de 1967, de sua luxuosa maison de três andares na rua Rita Ludolf, esquina com San Martin, no Leblon. Com projeto de interiores de Marisa Sparvoli, o espaço combinava o refinamento francês com a leveza do estilo tropical. A casa, com três andares, foi montada seguindo uma lógica inspirada na moda francesa, uma maison de haute couture e uma butique. A decoração procurava traduzir o clima brasileiro, com móveis nacionais, branco em destaque, luminosidade de verão. 

A estrutura contava com salão de desfiles para 130 espectadores, passarela elevada desmontável, focos direcionais de luz para valorizar as manequins, estúdio pessoal para o criador, sala de provas e oficinas de produção integradas sob o mesmo teto. Na imprensa, a opinião unânime era de que a decoração de sua maison era sensacional.

Desenho de Hugo Rocha, representado com gola rulê e paletó, “Hugo Rocha na linha masculino-feminino”, na capa da Revista de Domingo do Jornal do Brasil, 29/10/1967

Na noite de inauguração, para um momento de grande visibilidade, o costureiro preparou um espetáculo. Hugo apresentou a coleção conceitual “Brasil 2000” por meio de um desfile performático com jogos psicodélicos de luz e trilha sonora marcante. A apresentação dividiu-se em três partes:

Brasil Primitivo: moda praia em tecidos rústicos como linho e cânhamo desfiados, decorados com contas e fitas coloridas ao som de música barroca;

Brasil Moderno: trajes esporte em fustão e linhão de silhueta evasê, com pespontos, botões globulares e cavas quadradas, embalados pela bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes;

Brasil Eterno: moda festa com vestidos longos de zibelina, voile florido e organza branca ao som de Carlos Gomes e Villa-Lobos.

Este evento, moderno e experimental, revela bem o temperamento criativo de Hugo Rocha. Sua proposta de moda brasileira é uma forma de contar sua pequena história do país. Uma interpretação estética, expressando-se por meio da linguagem da roupa, inserida numa cultura de moda.

No alto da página, à direita, o terninho que Hugo Rocha criou com a jaqueta Lindu pintada por Olly Reinheimer. Para quem quisesse variar, diz a legenda, “é eliminar a calça comprida e ficar com um mini vestido em tons de amarelo e marrom”. A bijuteria marca presença com as criações de Jair Dias, “em dourados e prateados, em brincos, broches e colares extravagantes”; “Quem bons ventos nos levem às Índias”, fotos de Octales Gonzales, Boutique JB, Revista de Domingo, Jornal do Brasil, 22/09/1968

Ao longo da década de 1970, o ateliê do Leblon viveu seu ápice. Hugo criou uma coleção de gravatas floridas, pintadas à mão, desenhou cintos ornamentados com moedas de prata argentinas, bolsas de linho cru com veludo, chemises em veludo italiano e tamancos de cortiça com dez centímetros de altura. Fez parcerias inovadoras com artistas plásticos, produzindo túnicas associadas a joias de Burle Marx e roupas confeccionadas com tecidos pintados à mão por Olly Reinheimer. Demonstrou ainda sua versatilidade ao assinar os uniformes das garçonetes do restaurante vanguardista Ganga-Zumba, em Botafogo.

Sua maison tinha uma proposta rara e ousada. Reunia num mesmo endereço criação, desfile, venda e produção. Com isso, seguia à risca o mise-en-scène da alta-costura, criando uma experiência completa de moda carioca.

Acima, “o vestidinho de fustão, com flores em vermelho e laranja, tem todo o seu charme no vazado da cintura e nas argolas em plástico branco. Bem cavado e bem mini, é o estilo perfeito para o nosso verão”; abaixo, “o branco, mais uma vez, agora num crepe grosso e encorpado. O detalhe está na barra em franja dupla de contas leitosas, de inspiração charleston”; e, à direita, “o branco e o preto, em estamparia sinuosa, fazem este redingote bem cavado e decote em V. Cinto com ilhoses e debruns vermelhos que dão um ar alegre e compõe uma falsa sobressaia”. Ana Maria Nascimento Silva posou para Evandro Teixeira, “Uma nova maneira de vestir”, Revista de Domingo, Jornal do Brasil, 01/12/1968

No início da década de 1970, preparando-se para exportar suas criações, Rocha empregava 15 costureiras em seu ateliê, duas contramestres – uma para alta-costura, outra para o setor do prêt-à-porter. Conhecido por ser um dos criadores mais requintados da moda carioca, ele insistia em modelar e cortar pessoalmente cada molde para assegurar o caimento exato das peças.

Ao mesmo tempo, quando a moda debatia a novidade das roupas prontas, mais acessíveis e práticas, o estilista defendia a coexistência harmoniosa entre os dois sistemas de produção: “Acho que o prêt-à-porter se desenvolve, inclusive, a partir da alta-costura. Um sem o outro não evolui”.

No verão de 1970, um dos itens mais vendidos de seu ateliê foi o chapéu de aba larga, redonda, de pano, feito em fustão de abelha, uma raridade encontrada na maison Hugo Rocha. Fazia o estilo Catherine Deneuve, com a aba maior escondendo parte do rosto. “Neste verão, o chapéu” entre os “Best sellers”, da Revista de Domingo, Jornal do Brasil, desenhos de Iesa, 18/01/1970

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