Butique e prêt-à-porter
Hugo Rocha não foi apenas um costureiro tradicional, preso ao esquema da moda sob medida para as senhoras da elite. Ele entendeu cedo que vivia numa sociedade em transformação na moda carioca. No Rio de Janeiro da segunda metade dos anos 1960, a vida noturna, a praia, a bossa nova e a circulação em Ipanema demandavam roupas práticas, abrindo espaço para a moda pronta.
Em outubro de 1965, mostrou sua primeira criação de roupas prontas para vestir, “com confecções que nada ficam a dever às criações de alta-costura”. Nos trajes, que seriam vendidos em lojas e butiques, predominaram as cores branco, rosa, preto, amarelo e vermelho, além de várias tonalidades de bege. As roupas apresentavam ainda a grande novidade de serem feitas em linho adamascado de toalha de mesa e renda de nylon, reafirmando sua assinatura ao usar materiais de diferentes procedências.

A consolidação de seus negócios deu-se com a inauguração, em dezembro de 1967, de sua luxuosa maison de três andares na rua Rita Ludolf, esquina com San Martin, no Leblon. Com projeto de interiores de Marisa Sparvoli, o espaço combinava o refinamento francês com a leveza do estilo tropical. A casa, com três andares, foi montada seguindo uma lógica inspirada na moda francesa, uma maison de haute couture e uma butique. A decoração procurava traduzir o clima brasileiro, com móveis nacionais, branco em destaque, luminosidade de verão.
A estrutura contava com salão de desfiles para 130 espectadores, passarela elevada desmontável, focos direcionais de luz para valorizar as manequins, estúdio pessoal para o criador, sala de provas e oficinas de produção integradas sob o mesmo teto. Na imprensa, a opinião unânime era de que a decoração de sua maison era sensacional.

Na noite de inauguração, para um momento de grande visibilidade, o costureiro preparou um espetáculo. Hugo apresentou a coleção conceitual “Brasil 2000” por meio de um desfile performático com jogos psicodélicos de luz e trilha sonora marcante. A apresentação dividiu-se em três partes:
Brasil Primitivo: moda praia em tecidos rústicos como linho e cânhamo desfiados, decorados com contas e fitas coloridas ao som de música barroca;
Brasil Moderno: trajes esporte em fustão e linhão de silhueta evasê, com pespontos, botões globulares e cavas quadradas, embalados pela bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes;
Brasil Eterno: moda festa com vestidos longos de zibelina, voile florido e organza branca ao som de Carlos Gomes e Villa-Lobos.
Este evento, moderno e experimental, revela bem o temperamento criativo de Hugo Rocha. Sua proposta de moda brasileira é uma forma de contar sua pequena história do país. Uma interpretação estética, expressando-se por meio da linguagem da roupa, inserida numa cultura de moda.

Ao longo da década de 1970, o ateliê do Leblon viveu seu ápice. Hugo criou uma coleção de gravatas floridas, pintadas à mão, desenhou cintos ornamentados com moedas de prata argentinas, bolsas de linho cru com veludo, chemises em veludo italiano e tamancos de cortiça com dez centímetros de altura. Fez parcerias inovadoras com artistas plásticos, produzindo túnicas associadas a joias de Burle Marx e roupas confeccionadas com tecidos pintados à mão por Olly Reinheimer. Demonstrou ainda sua versatilidade ao assinar os uniformes das garçonetes do restaurante vanguardista Ganga-Zumba, em Botafogo.
Sua maison tinha uma proposta rara e ousada. Reunia num mesmo endereço criação, desfile, venda e produção. Com isso, seguia à risca o mise-en-scène da alta-costura, criando uma experiência completa de moda carioca.

No início da década de 1970, preparando-se para exportar suas criações, Rocha empregava 15 costureiras em seu ateliê, duas contramestres – uma para alta-costura, outra para o setor do prêt-à-porter. Conhecido por ser um dos criadores mais requintados da moda carioca, ele insistia em modelar e cortar pessoalmente cada molde para assegurar o caimento exato das peças.
Ao mesmo tempo, quando a moda debatia a novidade das roupas prontas, mais acessíveis e práticas, o estilista defendia a coexistência harmoniosa entre os dois sistemas de produção: “Acho que o prêt-à-porter se desenvolve, inclusive, a partir da alta-costura. Um sem o outro não evolui”.

