Um costureiro brasileiro
Hugo Rocha firmou seu espaço na alta-costura brasileira no início dos anos 1960, destacando-se como um dos poucos criadores negros em um mercado altamente elitizado. Naquela época, o termo “costureiro” definia o profissional dedicado ao trabalho de ateliê, à confecção sob medida e ao mercado de luxo. Com forte inserção na imprensa carioca nos anos 1960 e 1970, ainda jovem passou a ser reconhecido como um dos nomes promissores da alta-costura.
Suas criações eram consideradas originais e autenticamente brasileiras. Utilizava, em seus modelos, bordados rústicos ornamentados com miçangas, sementes e outros materiais orgânicos, como pérolas e conchas, além de tecidos com trama de barbante. Entre as peças mais comentadas de seu portfólio estavam os palazzo-pijamas (calças de pernas amplas e fluidas), que ele ajudou a popularizar no Rio de Janeiro, adaptando o corte ao corpo e ao gosto das cariocas, bem como ao clima tropical.
Hugo Rocha lançou, como modelos profissionais, Elke Maravilha e Nixon, e vestiu durante muitos anos as cantoras Elizeth Cardoso e Elza Soares. Em seu ateliê, no Leblon, “imperavam as manequins negras, lindas. Um estilo misturando África e Brasil, de cortes impecáveis, nos redingotes e túnicas preciosas”. Suas clientes buscavam uma elegância menos previsível: sofisticada, dramática, e sempre com muita personalidade.
Em matéria publicada em agosto de 1961, Elizeth Cardoso saiu em defesa da produção brasileira com argumentos extremamente lúcidos: “Acredito na moda brasileira. Não vejo nada lá fora que não se possa fazer aqui. Falta é quem prestigie a nossa moda. Há mulheres elegantes por si mesmas, mas a elegância não é tabu. Uma boa costureira e uma boa orientação são grandes aliadas da mulher. Faço meus vestidos com Hugo Rocha, que cria modelos exclusivos para mim”.

Naquele período, a engrenagem social da moda de luxo funcionava assim: o costureiro brilha, mas brilha através das mulheres que podem pagar, aparecer e circular com as suas criações – dinâmica que se mantém até os dias de hoje. A roupa, é notícia, status, publicidade e performance social. Moda, imprensa, colunas sociais, bailes, casamentos, recepções, concursos e eventos beneficentes formavam um sistema eficiente de legitimação.
As socialites cariocas exerciam papel decisivo nesse processo de consagração. Embora não desenhassem vestidos, faziam com que eles se tornassem assunto. Ao atender uma cliente de renome, o estilista agregava valor ao seu próprio nome, beneficiando-se da rede de contatos e do poder de circulação dela. Um vestido bem-sucedido circulava nas conversas de salão, nas fotografias das revistas e, quando a sorte ajudava, na memória mundana da cidade.
Esse mecanismo fica evidente na reportagem “Quando a noite é de gala”, veiculada pela Manchete em 21 de setembro de 1963. O texto assinado por Adelina Capper analisa a dinâmica entre criadores em busca de prestígio, clientes em busca de distinção e periódicos à procura de imagens atraentes: “É nos vestidos de soirée que os mestres da costura se salientam. É nos trajes de gala, exibidos nas grandes ocasiões, que eles dão asas à imaginação”. A publicação reuniu criações luxuosas de nomes consagrados que vestiam a high society, como José Ronaldo, Hugo Rocha, Dener, Guilherme Guimarães e Joãozinho Miranda.

Nessa época, o vestido de gala, chamado na revista de soirée, era a criação mais importante do costureiro. Ali, ele demonstrava seu virtuosismo, o corte precisava ser impecável, o tecido, deslumbrante. Essas peças eram usadas em bailes de debutante, recepções, casamentos, festas beneficentes e grandes acontecimentos sociais. Neste sentido, a mulher da sociedade era, ao mesmo tempo, cliente, modelo, patrocinadora simbólica e veículo de imprensa – com penteado armado, joia de família e nome na coluna social.
