Miss Boneca Pop
Hugo Rocha parece ter trabalhado na interseção entre quatro registros: alta-costura, juventude, noite carioca e performance. O estilista também esteve presente nos circuitos contraculturais e de vanguarda do Rio de Janeiro. Em 1974, integrou o júri da histórica primeira edição do concurso Miss Boneca, também chamado na imprensa de Miss Boneca Pop, ligado a sociabilidades artísticas, queer e trans.
Esse concurso de misses voltado para travestis reunia concorrentes de todos os estados do país. Teve três edições, até 1976, e aconteceu no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro. Vale dizer que os espetáculos de travestis ficaram proibidos no teatro de 1969 a 1973 e “sair ‘de mulher’ era arriscado e proibido”, relata Cláudia Celeste, carioca, campeã do Miss Boneca 1976. “Já fui presa na Cinelândia porque eu estava vestida de mulher [risos]. No meio da rua, andando. Prendiam, atentado ao pudor”.

Scarlett Moon e Nelson Motta deram a notícia da primeira edição do Miss Boneca Pop na página Linhas Cruzadas, do Globo. O Carlos Gomes estava lotado. Naquela noite festiva, o júri contou com figuras marcantes da cultura brasileira, como a cantora Wanderléa, o ator Marco Nanini, o cartunista Jaguar, o artista Edy Star, a consagrada Rogéria e o próprio Hugo Rocha, que compareceu de tranças lançando sua ousada “linha Taras Bulba”.

No desfile, havia dois momentos: traje típico e de gala. Na primeira etapa, com dozes finalistas, eram julgados os quesitos “elegância”, “simpatia” e “traje típico”. Na parte final do certame, foram avaliadas as categorias “‘beleza’ e ‘desembaraço oral’ a ser provado respondendo, em público, à pergunta: ‘Se ganhasse o título, o que você nos levaria a conhecer em seu Estado?’”. A dinâmica do concurso lembra as balls, os bailes ballroom do século XXI.
É interessante perceber os cruzamentos entre o Miss Boneca Pop e a moda carioca. As socialites, frequentadoras dos salões de beleza e dos ateliês de costura, doavam vestidos de seus guarda-roupas para seus amigos cabeleireiros, que, por sua vez, usavam em suas apresentações as peças que faziam parte do circuito da alta-costura.
A presença de Hugo Rocha no Miss Boneca reafirma a existência de uma cultura de moda no Rio de Janeiro, um circuito que aproximava travestis, cabeleireiros, socialites e costureiros. O concurso não se limitava ao campo da performance travesti. Ele mobilizava códigos de beleza e sofisticação que estavam presentes nos ateliês, nos salões e nas colunas sociais.
