José Ronaldo
O jovem José Ronaldo, ainda com 20 anos, foi contratado pela Fábrica Bangu como seu desenhista exclusivo, fato registrado pela reportagem “A moda brasileira ganha um craque”, publicada na revista Manchete em abril de 1953: “Filho de família ilustre – parente de ministros, diplomatas, juristas e políticos famosos – o rapazinho estudou no Pedro II e lhe estava reservada a carreira diplomática”. Contudo, seu interesse residia exclusivamente no desenho de roupas. Estimulado pela amiga Danuza Leão, começou a vestir nomes proeminentes da sociedade carioca. “Um dia veio a festa de Coberville. José Ronaldo criou modelos para todas as damas que compareceram, inclusive dona Darci Vargas. Foram um sucesso. A fama chegava sem que Ronaldo percebesse. Voltando ao Rio, consegue sua grande oportunidade”.

Essa ascensão coincidiu com um período de profunda transição na moda nacional. Em meados da década de 1950, seu ateliê era um dos endereços mais prestigiados da sociedade carioca, atraindo uma clientela interessada nas novidades da alta-costura. Sua visibilidade aumentou ainda mais com a revista Manchete (lançada em 1952) onde, durante alguns anos, assinou a coluna “A moda brasileira”. Em agosto de 1953, a revista anunciava a novidade: “O figurinista brasileiro José Ronaldo começará a desenhar exclusivamente para Manchete, moda brasileira em tecidos brasileiros”. Essa contratação acirrou a concorrência editorial com a revista O Cruzeiro, que mantinha em seus quadros o consagrado Alceu Penna.

Nas páginas de Manchete, José Ronaldo publicava desenhos de sua própria autoria, reforçando sua imagem como criador. Mesmo assinando seus modelos, fazia questão de destacar sua sintonia com as tendências lançadas por Paris. Entretanto, naquele momento, crescia a percepção de que o Brasil precisava também de seus próprios nomes de destaque, criadores capazes de assinar coleções, conquistar reconhecimento público e representar uma produção de moda nacional cada vez mais sofisticada.
A revista Joia, dos mesmos editores de Manchete, também dedicava espaço cativo à produção de moda. Em maio de 1959, a capa de Joia exclamava “Figurinistas brasileiros!”. José Ronaldo fazia parte da seleta turma que representava o melhor da alta-costura nacional. Entre os que atuavam no Rio de Janeiro, estavam também Elza Haouche, Nazareth e Laís. O texto lançou a pergunta: “Existirá moda brasileira?”. “Eis uma pergunta já feita milhares e milhares de vezes sem que uma resposta definitiva, concreta, conclusiva tivesse sido dada. Pois bem, Joia vai responder a esta questão através deste grupo de figuras famosas do mundo da alta costura brasileira que representa sem dúvida alguma a nata, a mais viva expressão desta difícil e discutida arte de bem vestir a mulher brasileira”. A proposta da revista, àquela altura, era publicar reportagens regulares mostrando o trabalho desses criadores. “Vocês verão o quanto vale este punhado de artistas que até hoje não ocupa um lugar de mais vivo destaque porque simplesmente vive-se no Brasil a ilusão de que vestir bem é vestir o que vem de Paris”, alerta o texto.
Convidado a opinar, José Ronaldo declarou: “Sou o mais caro figurinista e cobro uma pequena fortuna por um ‘croquis’. Desenho para o ‘top’ do Rio como as senhoras Elisinha Moreira Sales, Teresa Sousa Campos, Yvone Lopes etc., etc., etc. Considero a cor elemento fundamental para a figura feminina. O colorido é a real base da elegância latina. O sol simboliza a radiosa beleza da mulher brasileira que incontestavelmente é das mais belas e elegantes de todo o mundo. Por esta razão é que a elegância brasileira, uma elegância tropical, digamos assim, tem tudo para conseguir um lugar de destaque no cenário mundial da moda. Adotemos pois o clima e as cores dos trópicos para embelezar a figura da mulher brasileira. Sublinhemos os seus encantos com tons vivos ou tons leves, conforme o caso ou a ocasião. Por outro lado, precisaríamos para pretender um lugar de destaque no plano internacional da moda, possuir uma indústria de tecidos de categoria. E a nossa indústria, sem qualquer sombra de dúvida, é a primeira da América do Sul e uma das boas de todo o mundo. Temos qualidade e bom-gosto nas mais variadas padronagens. Isto me parece é a base e portanto nós a temos. Quanto à ideia de fazer moda brasileira no mais estrito sentido da palavra, aqui está o meu apoio, ressalvando, porém, a afirmativa que a inspiração poderá ser francesa, sem contudo desmerecer o nosso trabalho de artistas”.
Para José Ronaldo, portanto, o desafio dos costureiros brasileiros não consistia em inventar uma moda nacional desvinculada das referências estrangeiras, mas em demonstrar sua capacidade de interpretar, adaptar e traduzir para o público local os códigos de elegância consagrados em Paris. Ao empregar a palavra “artista” para definir o ofício de “fazer moda brasileira”, conferia à moda um caráter de expressão autoral.

Nesse cenário, figuras como José Ronaldo tiveram um papel fundamental. Porque não se faz uma moda nacional apenas com roupas; é preciso que haja também criadores reconhecidos, veículos de comunicação que divulguem suas roupas e um público disposto a acompanhá-las. Revistas como Joia, lançada no Rio de Janeiro em 1957, e Manequim, publicada a partir de 1959, em São Paulo, contribuíram para a renovação do jornalismo de moda no Brasil. Elas ajudaram a legitimar a ideia de que a moda nacional merecia ser observada, fotografada e comentada por seus próprios méritos.

Em junho de 1963, a coluna de Alceu Penna em O Cruzeiro noticiou o lançamento de sua primeira grande coleção no novo ateliê do Flamengo. O desfile, marcado por tecidos refinados e bordados elaborados, atraiu a elite carioca, que assistiu à apresentação de modelos adornados com joias de H. Stern.
No mesmo ano, José Ronaldo participou das ações promovidas pela Rhodia, empresa francesa, interessada em divulgar seus fios sintéticos no país. Em parceria com o Museu de Arte de São Paulo — sob a gestão de Pietro Maria Bardi e Assis Chateaubriand —, criou shows, desfiles, coleções, valorizando a moda brasileira e articulando um circuito que envolvia artistas, costureiros, modelos e publicidade.[3] A partir de um tecido estampado pelo artista e compositor Heitor dos Prazeres, figura fundamental da cultura carioca, José Ronaldo criou uma túnica comprida, sem mangas, feita em Rhodosá, com forro de seda vermelho.
A peça hoje pertence ao acervo de indumentária do MASP, como parte da coleção doada pela Rhodia em 1972. O padrão visual dessa criação também foi utilizado em uma camisa vestida pelo próprio Heitor no documentário de Antonio Carlos da Fontoura, “Heitor dos Prazeres”, de 1965.

Ao longo dos anos 1960, seu ateliê “um apartamento de 500 metros quadrados na Praia do Flamengo, todo forrado de turquesa”,[4] atraiu clientes da alta sociedade carioca, consolidando sua trajetória. Diferentemente de contemporâneos como Dener Pamplona Abreu, conhecido por sua estratégia ruidosa de autopromoção, José Ronaldo optou pela discrição. Em um meio que frequentemente associava barulho midiático a sucesso comercial, sua postura reservada ajudou a fundamentar o respeito técnico e o prestígio profissional do estilista de moda.
No editorial “Coloridos para a primavera”, de 1963, Alceu Penna analisou os modelos de José Ronaldo para aquela estação. O jornalista elogiou as criações e teceu uma reflexão irônica — ainda atual — sobre as engrenagens da moda de luxo global: “José Ronaldo, sendo original, tem no entanto identidade com a linha ditada pela alta-costura francesa. E não podia ser de outra maneira. Por uma misteriosa coincidência – que reflete, talvez, a preferência de todas as mulheres do Mundo – as coleções de Paris, de Roma, de Nova York, Londres e Madri, e de outros centros, parecem afirmar sempre uma tendência única. Raramente se contradizem”. Esse comentário crítico evidenciava as pressões de padronização estética muito antes da era das redes sociais.


As legendas e o texto de Alceu Penna são um espetáculo à parte. Mais do que mostrar as roupas, essas reportagens, que poderíamos considerar como editoriais de moda, apresentaram personagens e formaram um repertório visual próprio. As fotografias são de Jean Solari. O modelo com animal print é chiquérrimo e certamente usaríamos na moda contemporânea.
Na reportagem “O que 1965 vai trazer”, publicada na revista Joia em dezembro de 1964, o estilista defendeu a autonomia criativa nacional diante das imposições parisienses sobre o comprimento das saias. O texto resgatava com humor a célebre frase do dramaturgo Bernard Shaw sobre o encurtamento das saias e o aprofundamento dos decotes: “espero estar vivo para assistir ao encontro triunfal”. José Ronaldo posicionou-se de forma independente: ‘Somos livres-pensadores e não nos guiamos por ninguém. O que for melhor será adotado, longo ou curto, não importa’”.

José Ronaldo atuou na construção de um caminho para que os criadores de moda brasileiros conquistassem espaço regular na imprensa e no imaginário do público. Na coleção apresentada na revista Joia em janeiro de 1966, de “inspiração oriental”, o costureiro abre espaço para a moda esporte, menos formal, “sinônimo de noventa por cento do guarda-roupa feminino, hoje em dia”, afirma o editorial. “Nada escapa ao toque esportivo, mesmo os vestidos de noite, mesmo os modelos de grande gala. E José Ronaldo decidiu se ocupar, também, das horas de praia, de campo, de passeios pela manhã, de piscinas”.


A partir da década de 1980, José Ronaldo trabalhou para a refinada Maison D’Ellas, em Botafogo, empreendimento de Glorinha Pires Rebelo, sua ex-esposa. Mesmo diante do avanço da produção seriada e o declínio gradual do protagonismo da alta-costura, permaneceu ligado ao universo da criação sob medida que ajudara a consolidar. “Mais que todos, José Ronaldo merece o título de pioneiro”, declaram João Braga e Luís André do Prado.[5]
Em maio de 1987, o costureiro faleceu de maneira trágica, de ataque cardíaco, trabalhando no ateliê enquanto atendia a uma cliente. “Foi um desespero”, afirmou a nota de José Rodolpho Câmara que saiu na revista Manchete.[6] “Morreu criando, entre risos e elogios subitamente cortados”.

