Laís & Elza
Laís Palmer e Elza Haouche integraram a coalizão de criadores que formaram uma “frente de bom-gosto e elegância” junto com a revista Joia, com o intuito de criar para o Brasil uma moda feita por “nomes que representam o melhor na nossa alta-costura”. Na edição de 30 de junho de 1959, declararam suas visões sobre a elegância feminina. Para elas, o exagero deveria ser veementemente combatido: “A mulher realmente elegante sabe a medida exata para maquilagem assim como deve se calçar, vestir e usar joias”, afirmou Elza; “a simplicidade é o grande segredo da elegância”, completou Laís.

Situada na Rua Inhangá, em Copacabana, a butique de Laís Palmer consolidou-se como um dos endereços mais refinados da Zona Sul carioca, segundo a cronista Maluh Ouro Preto.[7] “Os meus conjuntos são práticos, inspirados na moda italiana, que é a que mais se adapta ao nosso clima e às nossas praias”, declarou Laís Palmer à revista Joia. “A verdade é que a moda está muito independente e cada pessoa deve usar o que lhe fica bem de acordo com sua personalidade. O meu êxito – o sucesso da boutique Laís – é usar grandes fazendas em modelos os mais simples possíveis, conseguindo efeitos surpreendentes, quebrando o velho tabu que para boas fazendas só modelos rebuscados”.
Em depoimento realizado em 2009 a João Braga e Luís André do Prado, autores do livro História da moda no Brasil, Laís Palmer contou que começou a costurar com 25 anos para que tivesse meios financeiros para criar suas filhas. Tendo nascido em Alegrete (RS), passou a infância e a adolescência em Campos dos Goytacazes (RJ) mudou-se para o Rio de Janeiro no início da década de1950, com as filhas ainda pequenas, depois de se separar do primeiro marido. Em sua butique, “fazia roupa sob medida, mas também tinha peças prontas, únicas e exclusivas. Naquele tempo, não havia boas confecções; só as mais populares; eu criava os modelos lendo L’Officiel e outras revistas da moda. Mas era tudo muito fino. Meu ateliê chegou a ter dez costureiras; fiz roupas para Sarah Kubitschek e para muita gente da elite carioca”.

Elza Haouche, por sua vez, ao ser perguntada pela revista Joia se “existirá moda brasileira?”, respondeu: “Tenho mais de vinte anos no métier e reconheço a França como berço da moda. Minhas criações sempre são baseadas nas linhas ditadas pelos grandes nomes da alta-costura francesa. Dentro porém do que vem de lá, faço algumas modificações e mesmo criações mais de acordo com o gosto e feitio da mulher brasileira, visando na realidade ter uma linha certa para a estação exata”.
Localizada na Rua Rodolfo Dantas 26, a poucos passos do Copacabana Palace, sua butique e ateliê ocupavam um ponto estratégico da sociabilidade carioca. Sua clientela era variada e incluía turistas estrangeiras, que compravam de tudo, do esporte fino ao vestido de soirée. Elza vestia o high society e “na década de 1950, seu nome estava em evidência, a ponto de ser citada por Rubem Fonseca em seu romance Agosto, situado no ano de 1954”,[9] um sinal de que sua reputação ultrapassava os limites do circuito da moda e alcançava o imaginário da cidade.

A indagação sobre a existência da moda brasileira aparece também na reportagem “O verão brasileiro tem a sua moda”, publicada em outubro de 1958 na revista Manchete. Roberto Vasconcellos, que assinou o texto, escreveu: “Escolhemos o verão para analisar a moda brasileira, pois nesta época é que, parece-nos, algo mais nativo impera no espírito criador dos nossos figurinistas”. A matéria apresentou trajes de “três conhecidos nomes da alta-costura brasileira”, Dener, de São Paulo, Nazareth e Elza Haouche, ambos do Rio. “Poderíamos ter mais dez nomes famosos. Mas preferimos parar nesses três, que, sem favor, são os que mais produzem para esse ávido comércio feminino da moda. O critério, aqui, foi o do figurinista de maior ressonância pública”.

A reportagem de Manchete defendeu a existência de uma moda brasileira, pois o calendário de lançamentos europeu não coincide com as nossas estações. Assim, “quando lá se lança a coleção ‘outono-inverno’, estamos, aqui, preparando-nos para entrar no verão”. Dessa forma, a mulher brasileira, notoriamente das mais elegantes do mundo, “não iria, portanto, esperar a passagem de duas estações para vestir as ‘novidades’ lançadas seis meses antes na Europa”.
Segundo o texto, no descompasso entre o calendário europeu e o brasileiro é “que encontramos o fio da meada: aí vemos quem apenas copia e quem, partindo de uma diretriz a que o mundo inteiro obedece, porque vem do centro mundial da moda, cria modelos originais”. Sem dúvida, Elza Haouche ajudou a construir uma moda brasileira que dialogava intensamente com a França, mas que também procurou encontrar seu lugar próprio nos rituais de distinção e sofisticação da elite que marcavam a vida da capital do país.

“Tenho uma clientela certa e grande, que me assegura êxito constante, e para ela faço dois desfiles anuais no Copacabana Palace”, continua Elza Haouche na reportagem da revista Joia, em junho de 1959. “Quanto à mulher brasileira, acho-a elegantíssima. Condeno apenas alguns abusos tais como exagero de maquilagem e o uso impróprio de joias”. Apesar de demonstrar uma atitude conservadora e até um pouco severa em relação ao comportamento feminino, Elza Haouche foi uma das figuras mais conhecidas da elegância carioca em meados do século XX. “A elegância é algo que ‘não salta aos olhos’. Ao contrário, precisa-se olhar duas vezes para se perceber a verdadeira elegância. Tenho pavor do ridículo na moda ou fora dela, gosto de inovações e estou pronta para cooperar num movimento para criar uma ‘moda mais nossa’”.

