Modistas, figurinistas, costureiros e estilistas
Antes da popularização dos costureiros nas colunas sociais e nas revistas de moda, as modistas foram personagens centrais na formação de um dinâmico mercado de moda urbana e feminina. No século XIX, a rua do Ouvidor concentrava o comércio de tecidos, chapéus, toucas, vestidos, rendas, flores artificiais e todo tipo de roupa e adereço. Ali, as modistas orientavam escolhas, adaptavam modelos e comandavam oficinas de costura. Na primeira metade do século XX, o Rio de Janeiro contava com diversos estabelecimentos de tecidos sofisticados e variados, onde as clientes adquiriam as fazendas e os aviamentos antes de recorrer às suas costureiras ou modistas.
Essas profissionais transitavam entre a criação e a adaptação das tendências internacionais às expectativas de sua clientela. Frequentar suas oficinas era símbolo de distinção social. As profissionais mais renomadas mantinham figurinos, revistas e moldes atualizados, servindo de base para que as clientes escolhessem o modelo a ser interpretado de acordo com a ocasião, a estação do ano e a silhueta de cada uma.

A imprensa da época usava o termo “figurino” para se referir ao desenho das roupas, ao modelo que orientava a confecção. Muitas vezes, o termo representava a moda ainda no plano conceitual e de imagem — uma proposta gráfica que, associada à alta-costura, simbolizava refinamento e sofisticação.
Já o termo “figurinista” extrapolava a criação de guarda-roupas para produções artísticas. Ele nomeava o próprio costureiro-criador: aquele que desenhava peças autorais, lançava coleções e propunha uma identidade estética singular.
Havia uma diferença fundamental entre modista e figurinista: enquanto as modistas executavam a costura a partir de moldes prontos, os figurinistas concebiam modelos originais, propondo um ideal de feminilidade, elegância e contemporaneidade. Nos periódicos da época, “figurinista” e “costureiro” eram frequentemente usados como sinônimos. Essa acepção aproximava o profissional do que hoje conhecemos como estilista ou designer de moda, embora cada nomenclatura carregasse suas próprias nuances de prestígio.

Luís André do Prado chama atenção para o fato de que “no Brasil, o termo ‘costureiro’ ficou vinculado ao gênero masculino, sendo ‘modista’ a variação de termo para o gênero feminino, tendo em vista que ‘costureira’ designa a executora de roupas, sem o atributo da criação”.[2] Essas ambiguidades linguisticas revelam um campo profissional em estruturação. Termos como modista, costureiro, figurinista, estilista, designer sobrepunham-se e disputavam espaço para definir uma atividade que amalgamava técnica, comércio e expressão criativa.
Na tradição da moda, “costureiro” designa o criador de peças de alta-costura, produzidas sob medida para clientes exclusivas. Roupas que se destacam pela atenção aos detalhes, aos acabamentos e ao caimento. Já “estilista”, está associado à criação voltada para a produção em escala, concebida para ser produzida em escala industrial e atender um público mais amplo. O primeiro cria para um corpo específico; o segundo cria para o mercado consumidor amplo.
Na segunda metade da década de 1950, surgiu no Brasil um grupo de criadores dedicados à produção de uma moda autoral, exclusiva e sob medida. Sob a persistente hegemonia do gosto francês, esses profissionais empenharam-se em afirmar uma identidade singular, conquistando espaço para uma alta moda genuinamente brasileira.
Esse movimento alcançou grande visibilidade até meados dos anos 1970. Seus principais nomes circularam pelas grandes capitais, onde conquistaram diferentes graus de prestígio, clientela e reconhecimento público. Os costureiros tornaram-se figuras frequentes no colunismo social e na imprensa ilustrada, povoando o imaginário de uma elite que começava a valorizar a produção nacional, embora ainda demandasse o tradicional verniz internacional.
