O ideal de clausura da vida doméstica

Desenhos do inglês Henry Chamberlain e do francês Jean-Baptiste Debret mostram o hábito, herdado dos portugueses, de as mulheres andarem atrás de seus maridos, e toda a família em fila indiana.

A cena desenhada por Debret mostra doze pessoas que saem de casa para o passeio, a esposa, os filhos e os escravizados que pertencem ao chefe da família, funcionário de fortuna média. “Seguindo o antigo hábito observado nessa classe”, Debret escreveu, “o chefe de família abre a marcha, seguido, imediatamente, por seus filhos, colocados em fila por ordem de idade, indo o mais moço sempre na frente; vem a seguir a mãe ainda grávida”, acompanhada de sua sua criada de quarto. “Seguem-se a ama negra, a escrava da ama, o criado negro do senhor, um jovem escravo em fase de aprendizado, o novo negro recém-comprado, escravo de todos os outros. O cozinheiro é o guarda da casa”.

Um funcionário do governo a passeio com sua família, Jean-Baptiste Debret, c.1823
Uma família brasileira, Henry Chamberlain, c. 1820
Família indo à missa, Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive, 1841

A opulência que as senhoras exibiam em locais públicos, com os trajes usados, por exemplo, nas cerimônias religiosas, e também nas ruas, por meio do séquito de mucamas, amas e outras categorias de pessoas escravizadas que as acompanhavam, contrastava com a simplicidade das roupas usadas em casa. O traje da vida doméstica era simples, de tecido leve e arejado. Um tipo de roupão, conhecido como lava-peixe; camisolas largas; ou conjuntos de saia e blusa bem soltas, roupas frescas e confortáveis. 

O lava-peixe era como um robe de chambre, geralmente com mangas curtas, com um pouco mais de volume e roda, o que não deixa de lembrar o quimono japonês. Para Luiz Edmundo, as mulheres cariocas tinham o hábito de usar esse tipo de roupa na intimidade “porque o calor patrício era um simplificador da indumentária. As casas coloniais abafaram, e sinhá-dona, para não morrer diluída em suor, começava por diminuir os panos com que se cobria”.

Fiel retrato do interior de uma casa brasileira, Joaquim Cândido Guillobel, 1814
Uma senhora brasileira em seu lar, Jean-Baptiste Debret, c.1823

Ao descrever a prancha “Uma senhora brasileira em seu lar”, Jean-Baptiste Debret relata que procurou, neste desenho, mostrar a solidão das senhoras brancas nas primeiras décadas do século XIX, confinadas ao lar. “Mãe de família de pequenas posses”, ele escreveu, “vêmo-la sentada, como de costume, na sua marquesa (espécie de cama de forma etrusca, feita de jacarandá, cujo leito é constituído por um couro de boi bem esticado) que de dia serve de canapé muito fresco, e cômodo num país quente, para ficar longamente sentada de pernas cruzadas, à maneira asiática”.

Além do modo de permanecer sentada de pernas cruzadas, há outros elementos na aparência dessa mulher que remetem ao caráter oriental de certos costumes do Rio de Janeiro dos vice-reis e do rei. Por exemplo, seu penteado, um coque alto, preso à moda japonesa. A própria mantilha, herança lusitana, é a sobrevivência de um hábito árabe. Conforme relata Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, sir George Stauton, secretário do embaixador inglês na China e que esteve pela cidade de São Sebastião em 1792, ficou maravilhado com as senhoras cariocas: “as senhoras, sempre sem chapéu, mostram longas tranças ornadas de fitas e flores. Os olhos ternos têm-nos negros e vivos e a fisionomia sumamente expressiva…”.

As figurinhas criadas por Carlos Julião ao final do século XVIII também são fontes preciosas para pesquisadores da moda, da vida urbana e da cultura material da sociedade escravista. As aquarelas coloridas representam gestos, objetos, tecidos, penteados, adornos e relações sociais. De acordo com a descrição feita por Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, a prancha XXII mostra diferentes modos de vestir das mulheres brancas.

O traje caseiro matinal da primeira, à esquerda, roupão vermelho forrado de azul, mais curto do que a saia da anágua, que tem a barra rendada; o vestido de cerimônia daquela que está a seu lado, azul com parte da frente amarelo-ouro, enfeites de galão prateado, mangas e gola de rendas; a roupa de passeio, vestido amarelo-avermelhado com uma sobressaia preta, aberta na frente; e a longa e pesada capa, que deixa ver somente a saia vermelha. Todas usam sapatos de salto e fivela. 

[Trajes femininos – 03], Carlos Julião. Fundação Biblioteca Nacional.

Cada mulher foi desenhada numa pose diferente, como se estivessem representando determinados papéis ou circunstâncias da vida social. A moça rica que usa o vestido de cerimônia azul e amarelo segura um buquê e, com a outra mão, parece querer entregar uma carta. O decote do vestido está adornado com a mesma rosa do buquê. É provável que as flores e o gesto de segurar uma carta façam alusão ao hábito que muitas mulheres tinham de se comunicarem utilizando uma complexa linguagem criada a partir de flores e adereços, como leques e lenços. Até a posição onde os adornos eram usados poderia significar uma mensagem cifrada.

É preciso lembrar que a vida das senhoras era bastante reclusa e havia o ideal de clausura das mulheres brancas, que viviam submetidas a uma condição de extrema dominação. A elas era negada a chance de saber ler e escrever. O analfabetismo das mulheres era usado como ferramenta de controle.

Luiz Edmundo nos conta que no Rio de Janeiro colonial “só os homens da alta burocracia e dos altos negócios e mais alguns oficiais da tropa sabiam ler e escrever. Mulheres? Todas analfabetas. Prenda de estimado valor; na hora de casar, verdadeira garantia de paz conjugal”. E reproduz a infame modinha que circulava pela cidade:

Menina que sabe muito

É menina atrapalhada

Para ser mãe de família

Saiba pouco ou saiba nada

Entretanto, o analfabetismo levou as mulheres a criarem outros códigos de comunicação. Ao comentar a educação feminina, Jean-Baptiste Debret descreve o intrincado uso de flores, movimento de leques e balanço de lenços como um sistema alternativo de correspondência amorosa:

“Desde a chegada da Corte do Brasil tudo se preparara, mas nada de positivo se fizera em prol da educação das jovens brasileiras. Esta, em 1815, se restringia, como antigamente, a recriar preces de cor e a calcular de memória sem saber escrever nem fazer as operações. Somente o trabalho de agulha ocupava seus lazeres, pois os demais cuidados relativos ao lar são entregues sempre às escravas. Os pais e maridos favoreciam essa ignorância a fim de destruir pela raiz os meios de correspondência amorosa. Essa precaução, tão nociva, aliás, ao desenvolvimento da instrução, levou as brasileiras a inventarem uma combinação engenhosa de interpretação simbólica das diferentes flores, construindo uma linguagem de modo que uma simples flor oferecida ou mandada era a expressão de um pensamento ou de uma ordem transmitida, aos quais podiam ligar consequências diversas pela adição de inúmeras outras flores ou de simples folhas de certas ervas convencionadas de antemão. Pensamentos suaves, cólera, hora do dia, lugar de encontro, tudo se exprimia da maneira mais simples. Mas como a chave dessa correspondência era entregue ao rapaz que devia responder, essa ciência, transmitida assim de geração a geração, tornou-se um objeto de mofa quando os progressos da educação feminina a substituíram pela escrita”.

Como disse Manuel Antonio de Almeida, em mais uma de suas tiradas geniais, “a mantilha para as mulheres estava na razão das rótulas para as casas; eram o observatório da vida alheia”. Para além da possibilidade de ver sem ser visto, mantilhas e rótulas indicavam que a condição senhorial também se fazia sentir pelo ocultamento. Por trás das janelas mouriscas de gelosia, que lembram os cobogós usados pelos modernistas, as mulheres brancas viviam enclausuradas em suas casas. “Dulcinéias marchetadas de jacarandá”, disse o Marquês do Lavradio.

Uma história, Henry Chamberlain, c. 1820

O desenho “Uma história”, de Henry Chamberlain, retrata uma dessas Dulcineias, presas às rótulas, e um rico conjunto de tipos sociais femininos e masculinos. O homem à esquerda apresenta uma mistura interessante de tempos em seu traje, uma vez que veste chapéu tricórnio – mais afeito ao século XVIII – e calças compridas – peça básica do guarda-roupa masculino no século XIX. Está totalmente coberto por um capote preto que parece ser de tecido grosso e opaco, como a lã. De acordo com a descrição do artista:

“A visita de amigos do sexo masculino dentro de casa, durante a ausência do chefe, é considerada indecorosa pelas damas do Rio, motivo pelo qual elas não raro recebem visitas, por assim dizer, em plena rua, da maneira representada na gravura. Entrevistas de natureza amorosa são concedidas do mesmo modo. À aproximação de um transeunte, a rótula cai e a dama desaparece até passar o perigo de ser vista por um estranho.

“Dos negros aqui representados, a mulher vende milho e o homem, gamelas – vasilhas de madeiras, algumas de grande tamanho. As outras duas figuras são uma senhora e a criada. Parece estranho que, em clima sempre quente, o pesado capote de Portugal seja usado e preferido como vestimenta externa. No entanto, é o que se dá com as damas das classes médias e baixas. Tal a força do hábito!”.

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Fontes e referências

Henry Chamberlain, “Huma história”, 1822, Coleção Brasiliana Itaú. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/18481/huma-historia

Joaquim Cândido Guillobel, “Fiel retrato do interior de uma casa brasileira”, Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/113405-fiel-retrato-do-interior-de-uma-casa-brasileira

Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive, “Família indo à missa”, 1841, gravura, Instituto Moreira Salles. Disponível em: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19282/n-45-familia-indo-a-missa

Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, “A indumentária no Rio de Janeiro: séculos XVI a XIX”. O acervo iconográfico da Biblioteca Nacional: estudos de Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha. Renata Santos, Marcus Venicio Ribeiro e Maria de Lourdes Vianna Lyra (org.). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010. Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_obrasgerais/drg1336257/drg1336257.pdf

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