Revista Jóia

Com a crise econômica dos anos 1930 e, posteriormente, a Segunda Guerra Mundial, a moda internacional sofreu fortes abalos. Embora as revistas francesas ainda mantivessem uma posição de prestígio, a expansão das publicações ilustradas nacionais, com suas seções femininas, favoreceu a criação de uma imprensa de moda produzida por profissionais brasileiros e mais adaptada ao público local.

No Rio de Janeiro, revistas como RioSombra e Rio Magazine serviram de  laboratório para essa cultura de elegância antes da consolidação de títulos de grande circulação, como O Cruzeiro e Manchete. As socialites ocupavam suas páginas, opinando sobre estilo de vida, moda, etiqueta, ações beneficentes e férias na Europa ou nos Estados Unidos

O lançamento da revista Jóia, sediada no Rio,, em novembro de 1957, representou uma pequena revolução no universo das publicações femininas brasileiras. Lançada pela Bloch Editores – também responsável pelo sucesso de Manchete – e dirigida por Lucy Bloch, Jóia contava com um projeto gráfico moderno, e de visual sofisticado, sob a direção de arte do artista Rubens Gerchman. A revista inovava ao priorizar o uso de fotografias, inclusive coloridas

“Num ektachrome de Fúlvio Roiter, a atriz Tônia Carrero, em baby-doll, tal como aparece, agora, no palco”, capa da primeira edição da revista Jóia, lançada em novembro de 1957

A publicação estreou com a atriz Tônia Carrero na capa trazendo uma proposta editorial diferente do que circulava até então. Em suas páginas, Jóia reunia moda, cultura, atualidades, literatura e culinária em reportagens elaboradas, tratando suas leitoras como mulheres interessadas em temas que iam além das regras tradicionais de etiqueta e elegância.

Entre o fim dos anos 1950 e início da década de 1960, a imprensa brasileira expandiu significativamente seu alcance. Jornais e revistas ampliaram suas tiragens e alcançaram circulação nacional. A Jóia, por exemplo, atingiu tiragens de 100.000 e 140.000 exemplares. Os cadernos e as pautas tornaram-se mais diversificados, com seções dedicadas à cultura, ao comportamento, à vida social e à moda

Essa mudança no perfil das publicações voltadas para o público feminino – impulsionada também pelo lançamento da revista Manequim (Editora Abril, São Paulo) em agosto de 1959 – levou as redações a voltarem seus olhos para a produção nacional: costureiros, novas butiques, confecções e desfiles que ganhavam relevância

Teresa Sousa Campos, eleita uma das mulheres mais elegantes do Brasil, na capa da Joia em 31 de dezembro de 1961. As primeiras fotografias de moda realizadas no Brasil nasceram muito próximas da tradição do retrato fotográfico. Capas e páginas de revistas destacavam senhoras da alta sociedade, atrizes, cantoras, escritoras e outras mulheres de projeção pública. “Mais do que disseminar as tendências da moda, essas fotos visavam divulgar a imagem do retratado”, afirma Maria do Carmo Teixeira Rainho.

Jóia foi fundamental para a moda brasileira. Em vez de apenas reproduzir, com algum atraso, o que era publicado nas revistas estrangeiras, ela buscava criações, personagens e imagens do próprio país. Costureiros, ateliês e desfiles promovidos em âmbito nacional tiveram espaço em suas páginas. Embora hoje  essa prática pareça natural, na época, era uma inovação considerável. Além disso, a revista apresentava ensaios fotográficos elaborados, antecipando aquilo que mais tarde se consolidaria como o editorial de moda.

Páginas da revista Jóia, junho de 1959

As imagens de moda estampadas nas revistas também desempenhavam uma função nitidamente pedagógica. Elas Indicavam o traje correto para cada ocasião e orientavam o público sobre os padrões de elegância, disseminando modelos de feminilidade socialmente aceitos. As imagens deixaram de ser meras ilustrações  e assumiram um papel estratégico na construção do desejo, exibindo roupas, poses, ambientes e estilos de vida que seduziam as leitoras.

O crescimento das indústrias voltadas ao universo doméstico e feminino — como moda, cosméticos, moldes e confecções — abriu espaço para que editores e proprietários de veículos estreitassem a relação entre consumo e imprensa feminina. Com o objetivo de vender produtos ou mesmo um estilo de vida, as publicações divulgavam a moda por meio de ensaios fotográficos elaborados com manequins e celebridades. Desse modo, estimulavam novos hábitos e impulsionavam o mercado de consumo em expansão.

A moderníssima capa da Joia em janeiro de 1966: “Vestido em listras, com abertura a Pierre Cardin na cintura e grande decote das costas. O toque Cardin, de furos na cintura, invadiu e conquistou o prêt-à-porter do mundo inteiro e é a grande novidade do verão”. Como sublinha o texto da revista, os óculos, à la Courrèges, não poderiam ser mais modernos.

Nesse cenário, a revista Jóia foi determinante por não se limitar a registrar a moda francesa, ajudando a criar uma moda brasileira que passou a ser vista, comentada e desejada. Embora essa produção nacional não representasse independência plena em relação aos modelos estrangeiros,[1] a moda made in Brazil era promovida como sinônimo de bom gosto e sofisticação. E isso certamente colaborou para a consolidação de uma cultura visual da elegância no país.

Ao longo de sua existência de pouco mais de uma década, Jóia contribuiu para deslocar o foco da pergunta “o que Paris está usando?” para uma questão mais instigante: “quem está criando moda no Brasil?”. Essa nova perspectiva foi decisiva para a consolidação dos costureiros e para a formação de uma identidade de moda nacional. A moda brasileira começava, enfim, a contar sua própria história – ainda que com um inevitável sotaque francês.

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