Fotografia de moda

A fotografia de moda ganhou crescente espaço na imprensa nacional a partir do fim dos anos 1950. Esses editoriais tornaram-se frequentes em revistas direcionadas ao público feminino e também nos jornais, em cadernos de cultura e voltados para assuntos de interesse da  mulher. “A publicação de editoriais marca uma autonomia dessas imagens em relação aos textos e aponta para o fato de que também visualmente a moda passa a ser mais consumida”, afirma a pesquisadora Maria do Carmo Teixeira Rainho.

O avanço das técnicas de impressão e dos equipamentos fotográficos foi decisivo para que as revistas nacionais passassem a publicar editoriais coloridos de alta qualidade. O desenvolvimento da tecnologia facilitou a divulgação, de maneira mais constante e profissional, de fotografias de moda produzidas no próprio país.

Aos poucos, o público habituou-se a narrativas visuais compostas por poses, enquadramentos, cenários e manequins. Ao ampliar o alcance da produção brasileira, a fotografia consolidou um sólido mercado consumidor.

A atriz Mila Moreira na capa da Joia, em maio de 1964: “Um belíssimo modelo da grande linha de Jorge Farré. Um novíssimo penteado de Jambert. Um jovem e bonito manequim – Mila – que embeleza tudo”.

Junto com a promessa de modernização da vida cotidiana, as imagens contribuem para divulgar e consolidar determinados padrões que recaem especialmente sobre o corpo e o papel social das mulheres. Nas últimas décadas do século XX, o ideal de beleza feminina foi associado fortemente à ideia de juventude e magreza. Assim, embora a fotografia ajudasse a construir um repertório nacional de elegância, ela frequentemente reproduzia uma visão de mundo elitista, branca e hierarquizada.

Paralelamente, o país ingressava nos anos de repressão da ditadura militar. Em abril de 1967, três anos após o golpe que instalou a ditadura no país, o assunto central desta edição da revista foi a história do Brasil. Na capa, sob o título “Jóia vê o Brasil”, duas manequins posavam em Brasília, vigiadas por um soldado do exército. O recado, contudo, inverte a lógica de subordinação e propõe que a revista também via o que acontecia, embora o olhar dos três personagens direcionado para baixo, em direção à câmera, reforçasse o tom de subordinação.

Por conta da posição da câmera no enquadramento da imagem, o ângulo deforma um pouco os corpos, deixa as pernas mais alongadas e as cabeças menores. As moças vestem tecidos Seleção Rhodia Moda, Jóia, abril de 1967.

Alinhado ao tema da edição, a redação produziu um editorial com coleções de prêt-à-porter sob a premissa de fazer a moda percorrer o país. Com cenários concebidos por Cyro Del Nero e fotos de Luiz Carlos Autuori, a reportagem, realizada com a colaboração da VASP, recolheu em todo o território nacional “objetos e fotos, antigos e preciosos, para que pudéssemos contar estas pequenas histórias da História”.

Páginas da reportagem “A moda conta história do Brasil” dedicada a pop-art brasileira, Joia, abril de 1967. Diz a legenda: “Quando as galerias norte-americanas começaram a expor latas de sopa e garrafas de Coca-Cola, a revista Times batizou o movimento de pop-art. Andy Warhol, um dos pop-artistas, explicava: ‘Inspiro-me num automóvel ou no Super-Homem porque fazem parte da paisagem diária’. Era, em outras palavras, o mesmo que Mário de Andrade descobrira, desencavando a arte popular brasileira”.

Na mesma edição, buscando apresentar sua própria versão da história do país, a revista publicou a matéria “Quem faz a notícia no Brasil”, mapeando as jornalistas que atuavam em todo o território nacional. Em seis páginas, com fotografias e breves perfis, Jóia demonstrou que a presença feminina nas redações era um fato consolidado. “Saltos altos, minissaias e muita elegância invadiram todos os setores, entendendo de tudo, sabendo das últimas e das primeiras. Jornalismo não é privilégio masculino”. Além de celebrar a presença feminina na esfera pública, a reportagem marcava a conquista das mulheres de seu espaço na imprensa.

A matéria destacava as seguintes profissionais: Ylcléa Duarte Silva Coelho, Nina Chavs, Gean Maria Bittencourt, Léa Maria Bonfim, Gilda Chataignier, Marina Colasanti, Regina Guerreiro, Maria Lúcia Fragata, Simona Castellano, Alik Kostakis, Maria Aparecida Saad, Gilda Müller, Maria Claudia de Mesquita Bonfim, Walda Menezes, Maria de Lourdes Pinhel, Gilka Serzedelo Machado, Marise Miranda Freitas, Rita Cristina Sampaio Mota, Regina Helena de Paiva Ramos, Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita.

Figuram nestas páginas Ylcléa Duarte, Nina Chavs, Gean Maria Bittencourt, Léa Maria, Gilda Chataignier e Marina Colasanti; “Quem faz a notícia no Brasil”, Jóia, abril de 1967

A revista Manchete, também do grupo Bloch, acompanhava de perto a expansão da imprensa nacional e a relevância dos fotógrafos para o sucesso dos editoriais. “Depois que alguns manequins foram promovidos a mitos, os fotógrafos de moda acompanharam a mesma progressão”, escreveu Laís Gama e Silva na reportagem “Os fotógrafos fazem a moda”.

A convite da revista, Maria de Fátima, descrita na época como “o mais famoso manequim brasileiro do momento”, posou para três profissionais da revista: Hélio Santos, Paulo Scheuenstuhl e Antônio Rudge. “Eles escolheram a roupa, a maquilagem, o penteado e o cenário para fotografá-la segundo seus estilos”.

“Hélio Santos escolheu para Fátima uma estamparia africana (criação Laís). Paulo Scheuenstuhl (à direita) preferiu um pareô estilizado (José Ronaldo) e maquilagem quase natural (Teresa Casoli)”; “Os fotógrafos fazem a moda”, reportagem de Laís Gama e Silva, Manchete, 30/03/1968

Inspirando-se no clássico cinematográfico Blow-up, de Michelangelo Antonioni, a revista afirmava que o fotógrafo de moda é o símbolo do jovem moderno. “A verdade é que ele hoje dita as regras para obter o máximo em suas proezas profissionais”. Há sempre uma aura de mistério e sedução em torno deles.

Esses profissionais assumiram um papel central no espetáculo da moda ao comandarem poses, definirem enquadramentos e influenciarem o modo como as mulheres eram representadas e desejadas. Nesse sentido, é preciso tomar cuidado com os riscos implicados no poder atribuído a essa autoridade visual, para que certos mecanismos de opressão e controle sobre corpos femininos não sejam glamourizados.

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