Copacabana, princesinha do mar

Sacopenapan era uma região rústica, habitada pelos Tamoios. Por lá abacaxis, pitangueiras, espinhos e cardos povoavam as areias e conviviam com pescadores. De tempos em tempos, navios ancoravam perto das areias e retiravam parte dos frutos que se ofereciam em seus botes. Parte desses navegadores estavam envolvidos com o comércio oficial ou não que garantia a riqueza da cidade. Entre eles, os peruleiros, comerciantes da prata trazida de Potosi, via rio da Prata. E foram eles, na passagem do século XVII para o século XVIII, que construíram uma pequena capela nas pedras do atual Posto 6, em devoção à Nossa Senhora de Copacabana. Assim, surgiu Copacabana.

Igreja de Nossa Senhora de Copacabana – Foto de Marc Ferrez, c. 1900. Instituto Moreira Salles

Os viajantes que passavam pela cidade nos séculos XVIII e XIX, curiosos por saber o que existia fora do núcleo urbano se aventuravam, por mar, até a região, alguns deles requereram terras à Câmara Municipal e se instalaram em chácaras e fazendas isoladas. Soldados acampados na Praia Vermelha também se arriscavam pelo morro da Babilônia, subindo ladeiras íngremes para desfrutar da tranquilidade da praia. Entre eles, um oficial dos batalhões estrangeiros, que fazia excursões nas manhãs frescas no ano de 1846 pelo Caminho do morro da Babilônia e descreve a paisagem cheia de abacaxis, com algumas casas e choupanas de pescadores e de escravizados, rodeadas de hortas. Mais tarde, esse caminho ficou conhecido como Caminho dos Pretos Quebra Bolas, levando muitos a acreditarem que seria um quilombo.

Em 1855, José Martins Barroso, mestre de obras e morador de Botafogo, se empenhou em prolongar a rua Real Grandeza até a rua Berquó, hoje General Polidoro, e depois até as franjas do Morro da Saudade ou de Vila Rica. Com isso, resolveu abrir uma ladeira pelo morro que o levasse até o outro lado – Copacabana – com o apoio das famílias da região. O abaixo-assinado dirigido à Câmara justifica o projeto que tornava “mais fácil o uso dos banhos às famílias que na estação calmosa frequentavam uma das mais limpas e aprazíveis praias da nossa capital”. Barroso teve o apoio geral dos moradores da região. A ladeira e a rua que se seguiu a ela foram chamadas de Ladeira do Barroso e rua do Barroso (hoje rua Siqueira Campos). Estava aberto um novo caminho.

Com esse novo caminho, cresceu a visitação à Copacabana e os primeiros empreendimentos começaram em 1858, com o incentivo de D. Pedro II.  Em 1873, o imperador inaugurou ali o cabo submarino, ligando o Brasil ao mundo. 

O Conde Figueiredo Magalhães comprou terras na Ladeira do Barroso e embaixo, perto da praia, e organizou a primeira linha de diligências para Copacabana. Torquato Couto, vereador da cidade, investiu na área do Leme, construindo sua casa próxima ao Morro da Babilônia, onde recebia visitas de Conrado Niemeyer que, em 1883, se instalou em um lote na rua Tonelero.

Muitos médicos, levados pelos benefícios dos frescos ares de Copacabana, passaram a morar no bairro. Várias ruas carregam seus nomes: Hilário de Gouveia, Barata Ribeiro, Sousa Lima, Sá Ferreira, Domingos Ferreira e outros. Ainda em 1905, quando a Companhia Jardim Botânico levou ao Leme os seus trilhos, eram populares as seguintes quadrinhas:

Pedem vossos pulmões ar salitrado

Correi, antes que a tísica os algeme,

Deixai do Rio o centro infeccionado,

Tomai um bonde que vai dar ao Leme.

Ou

Graciosas senhoritas, moços chics,

Fugi das ruas, da poeira insana:

Não há lugares para pic-nics

Como em Copacabana.

Os bondes foram os responsáveis pela ocupação de Copacabana. Em 1892, a Companhia Jardim Botânico inaugurou o túnel no morro de Vila Rica, com a presença do presidente Floriano Peixoto.  A partir daí, duas empresas imobiliárias passaram a comandar os negócios: a Companhia de Construções Civis de Alexandre Wagner, engenheiro e funcionário da Companhia Jardim Botânico e dos herdeiros de Constante Ramos; e a Companhia de Otto Simon e Paula Freitas que fez a abertura a avenida Nossa Senhora de Copacabana e de várias outras ruas.

Em 1909, o primeiro cinema chegou ao bairro (o Cinema Copacabana, na atual praça Serzedelo Correia) acompanhando a modernização feita por Pereira Passos e, em 1910, a população entre o Leme e Ipanema já alcançava 20 mil habitantes. 

Os anos 1920 assistem a transformação do bairro em balneário. O incentivo de Epitácio Pessoa para construção de hotéis por conta da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência resultou na edificação do Copacabana Palace, um projeto de Joseph Gire. Em função de muitos atrasos na construção e na chegada de material importado, ele só foi inaugurado em 1923, depois de acabada a Exposição. 

Copacabana Palace em 1926, três anos após sua inauguração. Foto de Augusto Malta – Instituto Moreira Salles.

Os ônibus e lotações começaram a circular no bairro a partir de 1930, junto com a modernização da iluminação da avenida Atlântica – o “colar de pérolas” de Copacabana, segundo Paulo de Frontin –  e a verticalização das construções. Na década de 1930 o bairro já tinha cerca de setenta edifícios, dos quais sete com mais de dez andares e os outros com mais de quatro. O estilo art déco avançava com suas linhas retas e artísticas, as janelas, como vigias de navios, olhavam o horizonte e o futuro e os guarda-corpos de ferro davam forma à construção. As varandas e balcões de alvenaria se destacavam e abriam espaço para a entrada do ar marinho, que refrescava os cômodos amplos e elegantes. O bairro concorria, com as regiões do sul da América Latina, à primazia dos jogos de azar. Dois cassinos disputavam pelo público endinheirado: o do Copacabana Palace e o Cassino Atlântico, que ficava bem no final da praia, perto da igreja e do forte, onde se encontram hoje o Hotel Fairmont e o Shopping Cassino Atlântico.

Cassino Atlântico. Fundo Correio da Manhã –  Arquivo Nacional.

Em 1934, mais uma parte do Morro do Ingá foi destruída para a construção da piscina e da pérgula do Copacabana Palace e, quatro anos depois, foram concluídos os trabalhos do “Corte do Cantagalo”, que abriu a ligação entre Copacabana e a Lagoa Rodrigo de Freitas. 

Os anos 1940 consolidaram a vocação turística e de lazer, atraindo as principais lojas sofisticadas da cidade. A essa altura, o bairro tinha 70 mil  habitantes e suas atrações faziam com que essa população duplicasse no verão, movimentando boates, cassinos, restaurantes, cinemas, teatros e estabelecimentos famosos, como a Confeitaria Colombo e a Galeria Menescal. Todas estas transformações dependeram, em larga medida, do fluxo de imigrantes do nordeste, fugidos das secas da região e incorporados ao mercado de trabalho como operários. 

Na década seguinte, com clima de balneário, Copacabana viveu seu esplendor cultural e social. O bairro viu o surgimento da bossa nova, o samba canção e o rock e assumiu um perfil boêmio. Além disso, tinha vocação vanguardista: abrigou o primeiro “shopping” da cidade – o Centro Comercial de Copacabana – e o primeiro supermercado com autosserviço – o Disco –, uma novidade para a época. Recepcionava com rapidez as modas e abrigou a juventude transviada e a audácia dos jovens e dos mais velhos, como o clube dos Cafajestes. A vida noturna da cidade passou a se concentrar ali. A boate da moda era a Vogue.

No Beco das Garrafas se assistia à chegada da Bossa Nova. Elizeth Cardoso, no disco Canção do Amor Demais, esbanjava sua voz acompanhada por João Gilberto. Os jovens do bairro se juntavam na casa de Nara Leão ou de Roberto Menescal para dançar e cantar.

 Bottle’s Bar que, junto ao Little Club e Bacará, recebeu os maiores nomes da música nacional. Fotógrafo não identificado – Site Rolé Carioca

Mas esse lado brilhante escondia muitas mazelas. Interesses imobiliários provocaram um adensamento populacional, com a construção de unidades de apartamentos com espaços bem reduzidos, os chamados JK (Janela e Kitnete), que tomaram conta das áreas entre a rua Prado Júnior e a rua Figueiredo Magalhães. 

Um dos aspectos mais marcantes desse período era a falta de água na Zona Sul. Como o crescimento da cidade se deu de forma vertiginosa, os serviços públicos não acompanharam esse ritmo e o abastecimento precário de água era cantado em letra de música. Cauby Peixoto imortalizou essa situação cantando “lata d’água na cabeça, lá vai Maria…”.

Faltava água e luz, as ruas estavam esburacadas e ocupadas por moradores em situação de rua. Na praia, à noite, acumulavam-se os sem-teto. Rubem Braga, morador do bairro, em 1958, numa das suas crônicas no livro “Ai de ti, Copacabana” dizia:

“Já movi o mar de uma parte e de outra parte. E suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal: estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia”

A criação do Estado da Guanabara, em 1960, e as reformas urbanas implementadas pelo Governador Carlos Lacerda trouxeram melhorias na mobilidade e infraestrutura, recuperando seu prestígio.