Belacap (Guanabara) versus Novacap (Brasília)

A cidade viu surgir, em alguns de seus bairros mais tradicionais, um movimento de reação às medidas progressistas e vanguardistas dos anos 1950. A sociedade carioca se dividia entre aqueles que defendiam Getúlio Vargas e os que o combatiam. A polêmica ganhou os meios de comunicação: nas páginas do jornal Última Hora, a defesa de Vargas e, do outro lado, na Tribuna da Imprensa, o grande líder da direita conservadora, o político da UDN, Carlos Lacerda. Apesar da reação capitaneada por Carlos Lacerda, em 1955 Juscelino Kubitscheck, um candidato liberal mineiro, acabou vencendo as eleições. 

O clima na América Latina nessa época era tenso e Juscelino Kubitschek quase não assumiu a cadeira de presidente. A reação à vitória de JK mostrou como já havia uma rede de defesa do conservadorismo aliada ao sentimneto anticomunista.

Mas mesmo com esse clima tenso, a cidade não deixava de saborear as novidades automobilísticas e os novos componentes do conforto do lar, as cozinhas americanas. As eletrolas eram ultrapassadas pelas possantes vitrolas estereofônicas que faziam a alegria dos jovens e velhos. Os filmes da Atlântida transformavam a cidade num imenso pandeiro. Tudo isso animava a capital e fazia retomar o gosto pela praia e pelas ruas. A vida mundana da cidade se expandia da Lapa para Copacabana e se apresentava sob aspectos diferentes, da boa vida dos playboys aos novos experimentos da esquerda e o avanço da UNE.

Copacabana nos anos 1950. SPREJER, 2012. Site Researchgate

Com Juscelino veio o Plano de Metas – 50 anos seriam resolvidos em cinco. Esse modelo nacional-desenvolvimentista estava ancorado no capital internacional como mecanismo básico para a construção de uma acumulação capaz de desenvolver a economia brasileira e gerar uma nova etapa na história do Brasil. Era necessário que se fizessem mudanças estruturais no país, reduzindo a desigualdade através de uma distribuição de renda e recursos menos concentrada no eixo sudeste. 

Previsão de “tempos” no plano de investimentos de Juscelino. Fonte: CPDoc/FGV

A estratégia dos pólos de desenvolvimento, em moda na época, combinada com um esforço nacional, levaram à decisão de mudar a capital do Brasil para o interior, seguindo uma orientação que, por motivos diversos, já havia aparecido no debate da primeira Constituição republicana. A mudança da capital tinha lugar certo: o interior do estado de Goiás, bem no centro do Brasil, fazendo dali saírem raios de desenvolvimento que alcançariam todo o país. Os investimentos nesse projeto foram gigantescos. Brasília seria a demonstração empírica do engenho brasileiro que criaria a cidade mais moderna do mundo, capaz de concorrer com qualquer outra capital europeia ou americana. Com projeto urbano de Lúcio Costa e arquitetura de Oscar Niemeyer, o avião do crescimento, marcado pelo desenho do plano de Brasília, seria a maneira de mostrar ao mundo a nossa capacidade de mudança. 

O Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960 ia se definindo como centro financeiro, dividindo com São Paulo a renovação econômica, garantido a relação entre capital e trabalho, já que em São Paulo concentravam-se as indústrias. Isso significou certa desmobilização do parque industrial carioca, que permaneceu antiquado diante do progresso de São Paulo, fazendo com que a antiga capital se confirmasse como vocacionada para os serviços. Foi nessa conjuntura que o Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, perdeu as suas funções de capital, e com elas a diminuição das atividades administrativas ligadas ao poder público, e parte do mercado consumidor mais importante do país. A barganha política que resultou da decisão de mudança da capital gerou a criação de um novo estado na federação, formado pelo antigo Distrito Federal. O novo estado recebeu o nome de Guanabara.

Brasília, a nova capital, expressava o futuro do Brasil e recebeu a denominação de Novacap não só porque era nova mas porque era a denominação da companhia construtora da cidade, em contraste com a Belacap, denominação da antiga capital do Brasil, Rio de Janeiro, agora capital do Estado da Guanabara.

Aprovada a Lei nº 2.874 que fixava os limites do  Distrito Federal e autorizava a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal – Site Museu virtual Brasília

O novo Estado da Guanabara, criado em substituição ao antigo Distrito Federal,  recuperava parte das tradições da cidade e de seu imaginário popular presente na cabeça dos cariocas.