Acervo do MAM

Na madrugada de 8 de julho de 1978, a cidade viveu uma das mais terríveis tragédias artísticas e culturais de sua história. Bastou cerca de uma hora para que um incêndio destruisse 90% do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio, fazendo desaparecerem, por exemplo, trabalhos de Salvador Dali, Joan Miró, Picasso, Henri Matisse, Rene Magritte, Portinari e Di Cavalcanti. Também viraram cinzas nada menos que 80 pinturas da fase construtivista do pintor uruguaio Joaquim Torres Garcia, que estavam ali para integrar a próxima exposição do museu, uma retrospectiva do artista. E quase nada sobrou da biblioteca, que antes do incêndio guardava cerca de 9 mil volumes, em especial sobre artes plásticas e arquitetura. Ao todo, apenas 50 obras sobreviveram às chamas, bem como o acervo da cinemateca, preservado entre as paredes de concreto. Também restou ilesa a estrutura do prédio modernista, com seus pórticos de concreto aparente à beira-mar, um dos emblemas da cidade.

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O museu foi reaberto em 1981, mas de forma precária. Suas atividades foram interrompidas diversas vezes. Foi graças à mobilização da classe artística que ele pôde ir se reerguendo e reconquistando espaço no circuito de exposições da cidade, o que ganhou impulso com a aquisição da coleção de Gilberto Chateaubriand, em regime do comodato, em 1993.

Foto: Antônio Nery – Bombeiros tentam apagar o fogo no edifício do MAM – 8/7/1978 – Agência O Globo

O incêndio do Museu Nacional, em 2018, reavivou o pesadelo da tragédia no MAM, cujas causas até hoje não foram esclarecidas. A única certeza é que ambos os casos ilustram os efeitos perversos do abandono cultural no país. Assim como o museu da Quinta da Boa Vista, o MAM também sofria com a falta de recursos que garantissem a preservação de seu acervo. E hoje, 40 anos depois de as chamas terem lambido seu interior, o espaço sofre, mais uma vez, com uma profunda crise financeira. Tanto que, para arrecadar fundos, vendeu uma de suas telas mais importantes para um colecionador particular, em decisão polêmica. A obra “Nº 16” (1950), do americano Jackson Pollock (1912-1956), foi arrematada num leilão em Nova York, em fevereiro de 2018, por valor bem abaixo do estimado.