Edifício Docas de Santos (atual sede do IPHAN-RJ)

A história do Edifício Docas de Santos se confunde com a do Rio de Janeiro do início do século XX. Trata-se de um marco das transformações urbanas vivenciadas pela Capital Federal dos anos 1900 e de um dos poucos sobreviventes dentre as mais de 80 construções erguidas na Avenida Central (atual Rio Branco), empreendimento que representou como nenhum outro a belle époque carioca.

Marc Ferrez, c.1910. Acervo IMS

Localizado no número 46 da Avenida Rio Branco e finalizado em 1908, o edifício recebeu esse nome por abrigar, originalmente, a sede nacional da Companhia Docas de Santos, empresa detentora do monopólio das operações do porto da cidade por onde era escoada a produção do café paulista por mais de noventa anos — o que fazia dela uma das maiores companhias do país. Foi o próprio presidente do Brasil à época de sua construção, Rodrigues Alves, quem solicitou aos sócios da empresa, Eduardo Palassim Guinle e Cândido Gaffrée, que transferissem seus escritórios da Rua da Quitanda para um edifício que refletisse a importância da companhia no cenário de transformação vivido pela capital do país. E, naturalmente, não haveria local melhor para a nova sede do que a Avenida Central — mais precisamente, na esquina com a Rua Teófilo Otoni.

Projeto do Edifício Docas de Santos (seção transversal). 1904. Arquivo Nacional

O projeto foi elaborado por Ramos de Azevedo, um dos mais importantes arquitetos do Brasil naquele período — responsável, por exemplo, pelo Theatro Municipal de São Paulo —, e a execução das obras ficou a cargo da empresa de Antônio Januzzi, considerada a construtora mais bem equipada da cidade. A pedra fundamental da edificação foi lançada na véspera do Natal de 1904, na mesma cerimônia que marcou o início das obras do Clube de Engenharia e do Theatro Municipal, e a construção teve início no ano seguinte. Sua inauguração ocorreu em 28 de janeiro de 1908, data simbólica para o comércio marítimo nacional, pois nesse dia completavam-se cem anos da assinatura da Abertura dos Portos pelo príncipe regente D. João, documento que pôs fim ao exclusivismo comercial entre Brasil e Portugal.

As referências ao comércio marítimo estão presentes tanto na fachada quanto no interior do edifício. As portas, esculpidas pelo português Manuel Ferreira Tunes — um dos mais talentosos artesãos de sua época —, trazem entalhes de navios mercantes e de produtos que estruturaram a economia agroexportadora brasileira, como a cana-de-açúcar, o tabaco e o café. Tunes realizou um trabalho marcado por referências nacionais, desde a escolha do material (jacarandá) até os detalhes ornamentais inspirados no barroco colonial.

O prédio possui cantaria em granito-da-Tijuca, também conhecido como granito carioca, pedra utilizada em inúmeras obras do Rio de Janeiro — da qual são formados, em grande parte, os morros do Corcovado e do Pão de Açúcar —, além de mármore Carrara, trabalhado pelo artista italiano Alexandre Sighière (também grafado como Alessandro Sighieri). Na entrada, os ladrilhos que compõem o mosaico do piso foram importados da renomada fábrica belga Bock Frères. As portas principais são encimadas por bustos do Barão de Mauá e do Almirante Tamandaré, ambos executados pelo escultor Henrique Levi.

Autor não identificado. c.1920. Fundação Biblioteca Nacional

Na fachada, nos pavimentos superiores, proas de embarcações criam a ilusão de avançar em direção à avenida. Ao fundo das esculturas aparece o símbolo do comércio, com duas serpentes entrelaçadas em torno de um bastão — representação do equilíbrio, elemento fundamental nas relações comerciais —, conhecido como Caduceu. No interior do Docas de Santos, há ainda outras alusões ao universo das navegações mercantis, como os retratos dos navegadores Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo.

O edifício segue o estilo eclético, comum a muitas construções da época, combinando elementos estéticos de diferentes matrizes da arquitetura ocidental. Grande parte dos materiais empregados — além do mármore, os ferros fundidos, esquadrias, vidros, tijolos e ornamentos — foi importada da Europa. O elevador, que ainda se encontra em funcionamento, também é original do período.

Pedido de tombamento do Docas de Santos, assinado por Gilberto Ferrez. Acervo IPHAN

Em 1977, Gilberto Ferrez, historiador e neto do fotógrafo Marc Ferrez, fez um apelo aos conselheiros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que atuassem em prol da preservação do Docas de Santos, argumentando que a construção “possui uma obra de cantaria das mais belas e uma porta de madeira esculpida nobilíssima”. No ano seguinte, teve início o processo de tombamento. Ao longo de mais de um século, o edifício abrigou salas ocupadas por profissionais liberais — especialmente advogados — e foi sede de empresas do setor, como a Companhia Cessionária Docas do Porto da Bahia e a Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. Em 1986, tornou-se sede da Fundação Pró-Memória — entidade que, em conjunto com o então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, deu origem ao Iphan, cuja superintendência no Rio de Janeiro permanece no número 46 da Avenida Rio Branco.

Em dezembro de 2019, teve início a maior restauração da história do prédio, então com mais de 110 anos. O trabalho envolveu a recuperação da fachada, reforço estrutural, renovação das instalações, modernização dos sistemas de segurança, adaptação para acessibilidade e restauração de elementos artísticos e móveis integrados. Durante esse processo, pinturas decorativas e ornamentações internas atribuídas a artistas como Del Bosco e Benno Traidler, que estavam encobertas por tinta branca desde a década de 1960, foram reveladas e restauradas.

Uma das obras descobertas pela restauração do edifício. Foto: Divulgação/Oscar Liberal/Iphan-RJ

Após essa grande intervenção, o edifício foi reinaugurado em 2024, consolidando-se como símbolo do patrimônio arquitetônico brasileiro e também como espaço cultural aberto ao público, com visitas guiadas e eventos que reforçam sua relevância para a história urbana, econômica e social do Rio de Janeiro.

Hoje, o Edifício Docas de Santos permanece como memória viva das transformações experimentadas pela cidade desde o início do século XX — e ainda tem muita história para contar.

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