Alta-costura e concursos de beleza

Nas décadas de 1950 e 1960, os concursos de misses funcionavam como importantes vitrines para a moda nacional antes do surgimento das semanas de desfiles organizadas. Nesse cenário, Hugo Rocha destacou-se pela estreita colaboração com as candidatas, desenhando, por exemplo, todos os vestidos de gala para o certame de Miss Guanabara em 1962.

“Marta falou de cadeira: as candidatas a Miss Guanabara foram procurá-la para pedir conselhos sobre os seus vestidos. Se não há problema com a escolha dos maiôs, todos exatamente iguais, o mesmo não se dá com os vestidos de baile. Embora sejam estes obrigatoriamente feitos pelo mesmo costureiro (este ano, Hugo Rocha), fica o campo aberto às preferências de caráter pessoal, predominando o gosto de cada candidata”, reportagem de Clóvis Sampaio, fotos de Nicolau Drei e Eveline Muskat; na foto maior, “Janete Passos escolheu este modelo em organdi branco, bordado com pérolas e com pingentes de miçangas nacaradas”, a outra foto mostra Hugo Rocha entre Janete e Helga Mayer (de pé), que “ainda hesita em sua escolha”. O texto da revista diz que depois da reunião “cordial e animada”, entre Martha Rocha e as candidatas a Miss Guanabara, estas “seguiram para o atelier de Hugo Rocha cheias de sugestões que ele acolheu com a maior boa vontade”, Manchete, 16/06/1962

Para os costureiros, vestir uma candidata significava reforçar sua imagem pública. A roupa aparecia em revistas, jornais, fotografias promocionais e desfiles diante de plateias numerosas. O corpo da miss era uma vitrine e, seu título, uma chancela. Hugo Rocha soube aproveitar de maneira positiva essa engrenagem. Ele vestiu, por exemplo, Vera Lúcia Couto dos Santos, Miss Renascença e depois Miss Guanabara em 1964. De acordo com a revista Manchete, a eleição de Vera – uma mulher negra, chamada de formosa mulata pela imprensa da época – “causou tanta alegria quanto uma vitória do Flamengo”. A participação de Hugo Rocha no sucesso de Vera Lúcia foi além de sua atuação como costureiro. Num concurso que certamente foi marcado por tensões raciais e sociais, Hugo ajudou na construção de uma imagem de elegância e autoridade.

“As dezoito mil pessoas que estiveram no Maracanãzinho, no último sábado, jamais esquecerão este momento: Vera Lúcia Couto dos Santos, Miss Renascença, de maravilhosa cor de chocolate, posa com a faixa de Miss Guanabara 1964. Favorita desde o teste da fita métrica – suas medidas são perfeitas –, ela mereceu o veredito quase unânime dos jurados, a confirmação do público e as palmas das candidatas”, Manchete, 11/07/1964
“Além de ser a mais bela candidata, Verinha foi a que melhor desfilou, fruto de uma brevíssima carreira como manequim de modas. Seu vestido, criado pelo costureiro Hugo Rocha e avaliado em cerca de trezentos mil cruzeiros, era de raro bom-gosto: branco, sobre fundo azul, com original estola de musseline saindo dos ombros; decote tomara-que-caia e tecido com fio de prata ornado de pingentes. O modelo, além de bonito, adaptava-se maravilhosamente ao seu tipo físico. Este ano, o desfile de vestidos de gala foi o mais luxuoso e elegante dos últimos tempos, graças à intervenção dos mais famosos costureiros cariocas. Cores preferidas pelas candidatas: branco, azul e rosa”, revista Manchete, 11/07/1964

Em maio de 1964, alguns meses antes da vitória de Vera Lúcia no concurso de Miss Guanabara, o Jornal do Brasil noticiou o desfile da coleção de Hugo Rocha para a temporada outono-inverno. Dono de um estilo que mesclava “o romântico e o exótico”, como anunciou o título da matéria, Hugo Rocha era apresentado como “um nome autêntico no panorama da alta-costura brasileira”. Suas peças equilibravam materiais nobres convencionais (musselinas e crepes) com inovações exóticas, a exemplo dos palazzo-pijamas e de calças pattes d’éléphant disfarçadas sob saias-calças. 

A coleção reunia vestidos chemisiers em tecidos nobres, como a organza brocada, com mangas amplas; tubos ajustados cobertos de miçangas, pérolas e franjas, bordados que se tornaram a sua marca, além de longos e decotes audaciosos contornados por plumas de avestruz, um tipo de luxo nada tímido que transformava acabamento em espetáculo. Vale dizer que “Etel, a conhecida autora de bijuterias, bordados, carteirinhas e botões”, é que fornecia bordados para sua casa de alta-costura.

O desfile contou com 23 modelos apresentados pelas manequins Vivi, Peggy, Aga e “Úrsula” — esta última, uma modelo negra de feições belíssimas que desfilou com exclusividade o traje de noiva em seda natural com decote canoa (bateau) e uma marcante capa-cauda. Mais tarde, revelou-se que “Úrsula” era o pseudônimo artístico adotado por Vera Lúcia Couto dos Santos antes de se candidatar ao Miss Guanabara.

“O costureiro Hugo Rocha lançou, certa ocasião, um novo manequim: Úrsula. Sua única aparição num desfile de modas foi um sucesso. Multiplicaram-se os convites profissionais e sua beleza atraiu os fotógrafos. Mas preferiu renunciar à perspectiva da carreira que se oferecia brilhante, a fim de não prejudicar os estudos. Vera Lúcia Couto dos Santos é o manequim Úrsula que Hugo Rocha descobriu um dia no Grajaú”, revista Manchete, 11/07/1964

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