Quem foi Hugo Rocha?

Mineiro, filho único, Hugo Rocha foi criado no Rio de Janeiro e o interesse pela costura veio de casa. Em sua família, havia quem fizesse roupas femininas, quem se dedicasse à alfaiataria, e quem trabalhasse com flores, chapéus e bordados. Ainda na infância, por volta dos dez anos, o menino já cortava, montava e costurava as roupas da mãe.

Em 1972, ao celebrar 25 anos de carreira na moda brasileira, ele relembrou o primeiro vestido que fez para ela: “Lembro bem: a saia era godê, exatamente o mesmo corte que hoje é tão moderno. O outro, o segundo vestido que desenhei, era verde-garrafa, de crepe, enfeitado com o mesmo crepe usado pelo lado do avesso, e todo drapeado”. Desde cedo, Hugo Rocha esteve envolvido no mundo dos tecidos, dos bordados, das técnicas e das belezas criadas pelos trabalhos manuais.

“Um macacão em polybel liso, com decote que começa na gola rulê e termina em torsade dourada. Maximantô em polybel estampado, com punhos aplicados de correntes, e abotoamento de alamares. Cachos penteados por Jambert (Tecidos Dona Isabel)”, diz a legenda do modelo de gala para o verão criado por Hugo Rocha para a revista Joia; “Criar é um verbo difícil”, reportagem de Simona Waldman e Ana Lucia Jordão, fotos de Sérgio Jorge e Dick Welton, agosto de 1969

Os costureiros estrangeiros tiveram influência em seu trabalho, e seu talento para o desenho o ajudou a transformar ideias em roupas. Hugo Rocha se inspirava em antigas revistas de moda para criar peças de arte brasileira – raras e artesanais. Sua  imaginação estava alinhada à modernidade que emergia naquele período.

Em 1969, ele declarou ao Jornal do Brasil, com notável modéstia: “Eu me considero um costureiro completo porque faço de tudo. Não só costuro como entendo qualquer coisa de bordado; corto e desenho o que faço. É uma obrigação que todo costureiro deve ter para saber dar ordens e ver onde estão os defeitos, orientando a mão de obra. Não me considero um grande profissional mas reconheço que o meu trabalho tem técnica e procuro sempre me aprimorar”.

Ao cobrir o lançamento de sua linha de roupas prontas em 1978, a jornalista de moda Iesa Rodrigues o definiu da seguinte forma: “Hugo Rocha, o primeiro costureiro carioca a colocar manequins negras na passarela, um dos pioneiros no uso de tecidos de algodão e bordados brasileiros em suas coleções, e o grande simplificador do estilo da moda masculina e dos vestidos de noiva, lança agora uma coleção prêt-à-porter”.

Além da projeção nacional conquistada na alta-costura, Hugo Rocha desempenhou papel de destaque nos bastidores dos concursos de beleza, manteve butiques disputadas em Copacabana e Ipanema e consolidou-se como um figurinista disputado por intérpretes consagradas e exigentes, como Elizeth Cardoso, Elza Soares e Ney Matogrosso.

Iniciou sua carreira na moda de luxo, mas percebeu a chegada da butique; dialogou com a juventude dos anos 1960 e 70, mas não abandonou o prestígio do sob medida; participou da tentativa de institucionalizar uma alta-costura brasileira, e também se aproximou do palco, da noite e da linguagem artística dos espetáculos teatrais. 

Hugo Rocha faleceu de câncer em março de 1984, aos 54 anos. Apesar de ter lutado contra a doença por quatro anos, “nunca deixou de trabalhar, tanto em seu atelier para clientes, em Copacabana, quanto no de costura, na Praça da Bandeira”, diz o obituário publicado no jornal O Globo. Dono de um estilo autoral de criação, jamais abandonou a renda, os bordados e os plicês.

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