Os indígenas tupinambá aos olhos dos europeus
Vestir-se também é um modo de se oferecer à visão, de querer ser visto, notado. O ato de vestir também é político, na medida em que se refere à maneira como o sujeito se expõe no mundo público, ao modo como quer ser visto. Jean de Léry, missionário calvinista francês que esteve no território do Rio de Janeiro em meados do século XVI, publicou o livro História de uma viagem feita à terra do Brasil, na França, em 1578. No livro de Léry, apelidado de “Montaigne dos viajantes”, ele se dedica a descrever com riqueza de detalhes os indígenas que habitavam os arredores da Baía de Guanabara.*
Nos desenhos retirados de seu livro, os corpos dos indígenas são apresentados como fortes e atléticos, próximos às estátuas greco-romanas. Foram representados segundo convenções visuais europeias renascentistas, com um olhar colonial. Em seu texto, Lery destaca diversos aspectos da indumentária dos Tupinambás: a forma como adornam seus corpos com elementos complexos que chegam a simular roupas europeias – como quando os homens pintam as coxas com jenipapo ou os guerreiros fazem escarificações com pó negro cujo resultado lembra os calções e gibões usados por europeus.

A ornamentação masculina inclui pingentes de osso chamados jacy e o enfeite de cabeça jempenambi, feito de penas coloridas de aves, sobretudo vermelhas, usados na fronte. Inclui ainda uma sofisticada arte plumária fixada ao corpo com resina ou costurada em vestimentas para guerras e rituais, com qualidade equiparada à dos artesãos de Paris. Ornamentos de penas verdes, encarnadas, azuis e de outras cores naturais de incomparável beleza.
As mulheres, por sua vez, também andam nuas e sem pelos corporais, mas mantêm os cabelos compridos. Às vezes os entrançam com cordões de algodão vermelho, embora a regra seja andarem com os cabelos soltos aos ombros. Enfeitam-se com braceletes de escamas de osso e complexas pinturas faciais geométricas e florais. Pintam-se umas às outras.

“É isto o que sei do vestuário com que os tupinambás costumam paramentar-se”, Léry escreveu. “Para dar justa ideia destes artifícios com que adornam o corpo seriam precisas muitas figuras a cores. Esta gente deleita-se com o estado de nudez, em que vivem em plena liberdade pais, maridos e parentes”. A partir do seu relato e das ilustrações que acompanham o livro, é possível observar os complexos sistemas de elaboração estética que existiam no Brasil muito antes da colonização portuguesa.
A sofisticação da plumária tupinambá, por exemplo, desafia concepções eurocêntricas de moda e indumentária. O próprio autor reconhece, em seu texto, que nenhum artesão da plumagem, em Paris, seria capaz de criar ornamentos tão primorosamente elaborados. É muito interessante observar a maneira como Jean de Léry percebe a aparência dos tupinambás e a compara com os modos de vestir dos franceses. Sendo um homem orgulhoso de sua religião, é certo que ele não seria capaz de aprovar a suposta nudez dos indígenas. Por outro lado, critica a superficialidade com que o vestuário é tratado na Europa. Para o olhar do cristão protestante, já naquele momento, o excesso de atenção dedicada à moda indicava a tentação do vício do luxo.
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Fontes e referências
Jéan de Léry, História de uma viagem feita à terra do Brasil
*Aqui você pode ler os trechos retirados e adaptados da obra de Jéan de Léry, História de uma viagem feita à terra do Brasil, em que ele narra a indumentária e os modos de vestir dos indígenas tupinambá:
Os homens tupinambás muitas vezes pintam no corpo arabescos de várias cores, e enegrecem as coxas com o suco de um fruto chamado jenipapo, de modo que vê-los de longe é imaginá-los vestidos de calções de padre. Infiltra-se tanto na pele este suco negro, que perdura por dez dias, por mais que banhem e esfreguem as coxas.
Usam ainda pingentes, presos ao pescoço por meio de cordões de algodão, que têm o formato de crescentes e são feitos de osso liso, brancos como alabastro, aos quais chamam jacy, do nome da lua. Os índios tingem penas de galinha branca com tinta de pau-brasil e grudam ao corpo por meio de certas resinas; ficam assim vermelhos e emplumados. Quanto ao ornato da cabeça dos tupinambás, além da coroa de frade e da madeixa à nuca, arranjam e atam penas coloridas de aves, sobretudo vermelhas, em ornamentos usados na fronte. O nome desse enfeite é jempenambi.
Quando vão à guerra, ou quando matam solenemente um prisioneiro para o devorar, enfeitam-se com vestes, carapuças, braceletes e outros ornamentos de penas verdes, encarnadas, azuis e de outras cores naturais de incomparável beleza. Tais penas são tão bem mescladas, combinadas e ligadas umas às outras sobre tiras de madeiras com fios de algodão, que nenhum plumaceiro de Paris o faria melhor.
Os seus maiores guerreiros, afim de mostrarem valentia, e também para indicarem quantos prisioneiros abateram e comeram, fazem pequenos cortes sobre o peito, os braços e as coxas, esfregando as incisões com certo pó negro e indelével; isso lhes dá a aparência de vestidos de calções e gibões suíços.
As mulheres vivem nuas como os homens, e arrancam todos os pelos, inclusive pestanas e sobrancelhas. Os cabelos não usam ungidos nem os tosquiam à maneira masculina. Trazem-nos compridos, penteados e cuidadosamente lavados, como as mulheres de cá; às vezes os entrançam com cordões de algodão vermelho, embora a regra seja andarem desgrenhadas, com os cabelos soltos aos ombros.
Ao rosto tratam-se de maneira curiosa, pintando-os umas às outras. Traçam com pequeno pincel uma rosa no meio das faces e tiram dela uma espiral azul, amarela ou verde, a partir da qual desenham pintas e sinais no rosto inteiro. Também pintam as sobrancelhas e pálpebras. Nos braços trazem braceletes compostos de várias peças de osso branco, talhadas à maneira de grossas escamas e reunidas umas às outras com cera e resinas colantes – tudo ajeitado da melhor maneira.
