As primeiras imagens de Brasil

No século XVI, o aventureiro alemão Hans Staden, cristão protestante, esteve no Brasil duas vezes, em 1547 e 1554. Três anos mais tarde, em 1557, publicou o livro A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América, com o relato de suas viagens, acompanhado de 55 gravuras. Não se sabe quem criou as imagens que ilustram a narrativa de Staden, que ficou conhecida como Duas viagens ao Brasil, mas tudo indica que o artista teria recebido orientações de Staden, que viveu nove meses como prisioneiro dos tupinambás.

Hans Staden. Uma descrição verdadeira de uma terra de gente selvagem, nua e feroz (Warhaftige be schreibung eyner landschafft der wilden nacketen grimmigen). 1557. Acervo Fundação Biblioteca Nacional.

As ilustrações, executadas com a técnica da xilogravura, não têm legendas, mas há indícios de que elas tenham relação direta com os próprios desenhos ou esboços de Hans Staden. As gravuras pareçam bastante simples, até mesmo para os padrões artísticos da época. O dado mais importante, porém, é que as ilustrações da primeira edição, publicada em 1557, circularam com o conhecimento e a aprovação de Staden, já que ele se refere a elas diversas vezes ao longo do texto1.

Seu livro de viagens fez bastante sucesso já no século XVI e se tornou muito popular ao longo do tempo. Os desenhos que ilustram sua narrativa, tão detalhada, foram algumas das primeiras imagens que chegaram aos europeus dos povos originários que habitavam o território brasileiro.

A gravura que mostra “dois homens tupinambás paramentados” é importante para compreendermos a indumentária indígena no Brasil do século XVI. O fato de estarem “paramentados” significa que estavam preparados para uma cerimônia, talvez, como levam nas mãos tacape e arco e flecha, para a guerra. 

A ornamentação plumária tem grande destaque na ilustração. Penas e plumas formam cocares, adornos e enfeitam também a arma do homem à esquerda. Ele usa adereços no pescoço e parece ter parte da cabeça raspada. O cocar e o adorno corporal de penas que veste o indígena à direita ampliam visualmente sua figura e criam uma imagem de imponência. Os dois homens usam adornos nas bochechas e nos queixos e têm suas peles cobertas por pinturas corporais.

Penteado e adornos faciais de pedra usados pelos homens tupinambás, gravura publicada na obra de Hans Staden, 1557. Acervo Fundação Biblioteca Nacional

A maior parte dos povos indígenas brasileiros tem, em sua cultura, práticas de vestir que cobrem o corpo com pinturas ou, em muitos casos, não cobrem seus corpos de modo algum. E não se pode dizer que vivam nus, pois estão vestidos por um rico repertório de pinturas corporais, adornos, cortes de cabelo. Ao invés de cobrir, se enfeitam, se adornam, modificam seus corpos, como o homem retratado na ilustração dita “penteado e adornos faciais de pedra usados pelos homens tupinambás”, publicada na obra de Hans Staden. 

Segundo Darcy Ribeiro, “o corpo é a base física mais frequente das atividades artísticas dos índios”. Além de exercer funções como a manutenção da temperatura do corpo e a proteção contra picadas de insetos, a pintura e a ornamentação corporal desempenham papéis de embelezamento e distinção.

Embora não sejam registros neutros por trazerem uma perspectiva europeia,os desenhos nos deixaram informações preciosas sobre a cultura tupinambá. Penteados e adornos são extensões da pessoa e significam relações cosmológicas.

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1De acordo com o brasilianista alemão Franz Obermeier, “pode-se supor que os desenhos remontem aos próprios esboços de Staden. Em vista do primitivismo das gravuras, mesmo para a evolução artística da época, pode-se pensar em um estúdio que talvez fosse antes especializado na gravação de selos. É sabido, porém, que as ilustrações na primeira edição de 1557 foram empregadas com o conhecimento e aprovação de Staden, visto que ele se refere a elas no texto repetidas vezes”. Citação retirada do artigo “As primeiras imagens do Brasil que correram o mundo”.

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