Pobreza e dignidade

Negra pobre dando a mão ao filho que leva uma cana na mão, Joaquim Cândido Guillobel, 1814. Instituto Itaú Cultural


Das representações femininas que estamos visitando nesta sala da exposição, a única que está inserida numa paisagem é a “negra pobre dando a mão ao filho que leva uma cana na mão”, desenhada com uma choupana ao fundo. A cena mostra signos de escassez material. De maneira geral, as mulheres negras e mestiças, livres, forras e escravizadas, fiavam e teciam suas próprias roupas.

Entretanto, mesmo estando identificada à pobreza, a composição visual da personagem revela domínio dos códigos da aparência. A mulher está descalça, usa tecidos simples e pouco estruturados, mas sua postura é firme e elegante. A primeira impressão que ela nos causa é, justamente, o contraste entre sua condição social marcada pela precariedade e a dignidade com que foi representada.

Seu traje é composto por uma blusa decotada, saia longa, e um pano, ou um manto, pousado sobre os ombros. A mulher negra ricamente vestida e a mucama (vistas nas memórias anteriores a esta) também usam esse tipo de acessório, que se aproxima das mantilhas e dos xales utilizados pelas mulheres brancas nas ruas. Na mulher pobre, o manto escuro lançado sobre os ombros cria movimento e amplia visualmente a figura, criando uma presença imponente.

A saia aparenta volume moderado e seu tecido parece ter alguma rigidez. Ela cobre integralmente as pernas, criando uma silhueta verticalizada. O azul é uma cor que está associada ao uso do anil, pigmento amplamente utilizado nos tecidos do período. Aliás, nas mulheres com roupas azuis nesses desenhos de Guillobel que estamos vendo, a cor apresenta uma certa gradação de intensidade. Aquela que está ricamente vestida usa um azul escuro, profundo, diferente do tom esbranquiçado da saia da mulher com a gargalheira.

A blusa da mulher que dá a mão ao filho é decotadíssima, grande parte do seu colo está exposta. O tecido parece leve, provavelmente algodão. É preciso levar em consideração que no Brasil colonial a nudez pública de mulheres escravizadas e também mulheres negras e mestiças livres ou forras talvez fosse um elemento cotidiano, algo naturalizado naquele contexto social, diz a professora Silvia Hunold Lara. “Para o olhar branco, de jesuítas, senhores, viajantes ou autoridades coloniais, o corpo das escravas podia ser exposto publicamente, enquanto o das senhoras brancas devia permanecer recluso no espaço doméstico ou devidamente ataviado para as visitas de cerimônia. As brancas recatadas escondiam-se sob os véus pretos das mantilhas para depois, em casa, ficarem em mangas de camisa, igualando-se às escravas que, muitas vezes, andavam quase nuas pelas ruas.” Reparem que a mulher ricamente vestida também usa uma blusa cabeção, que tem a gola larga e pendente.

Não podemos deixar de falar da presença da criança, que adiciona um componente emocional importante à composição. Sua roupa é bastante simples, feita, aparentemente, de tecido leve, como a blusa da mãe. O gesto de a mulher segurar a mão do filho integra a maternidade à cena, uma vez que para mulheres negras e mestiças, livres ou escravizadas, a circulação pública e o trabalho cotidiano eram exercidos ao mesmo tempo em que cuidavam de suas crianças.

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