Mucamas
A população feminina carioca no tempo dos vice-reis e do rei era bastante diversificada e estava enredada em complexas relações de dominação. Além das senhoras brancas da elite, havia aquelas pertencentes a camadas médias e baixas da sociedade. Mas a maior parte do corpo social era feita de pessoas negras e pardas: mulheres livres, forras, mucamas, escravizadas.
Essas imagens registraram práticas de vestir variadas, que revelam uma gradação na hierarquia social, desde as mulheres ricamente vestidas e adornadas, que mesclam elementos europeus aos africanos, àquelas semi-despidas ou em farrapos.

A mulher negra identificada como “mucama” é uma personagem recorrente na iconografia produzida sobre o Brasil nos séculos XVIII e XIX, e também no imaginário nacional. As mucamas ocupavam uma posição ambígua e de certa forma privilegiada no espaço doméstico senhorial. Elas desempenhavam funções ligadas ao cuidado, ao vestir, à circulação de objetos e eram as acompanhantes das senhoras.
Próximas da intimidade senhorial, eram, contudo, mulheres escravizadas e subordinadas; visualmente elegantes, tinham, porém, suas existências socialmente controladas. Muitas vezes, eram as sinhás que escolhiam as roupas vestidas pelas mucamas, ou regulamentavam seus trajes. Entretanto, isso não significa que essas mulheres não participaram da construção de suas aparências. Mulheres negras reinterpretaram tecidos, adornos, penteados e modos de vestir, criando suas próprias visualidades dentro das limitações impostas pela escravidão.

A mucama apresentada por Joaquim Cândido Guillobel tem lábios excessivamente grossos e mãos excessivamente grandes, um traço comum do olhar branco sobre os corpos de africanos e seus descendentes. Entretanto, a roupa constrói uma silhueta verticalizada e elegante e a modelagem dialoga com a moda europeia do período. Vestido decotado com cintura alta e marcada, saia comprida, tecido fluido.
A cor branca de sua roupa merece atenção especial, pois seu traje parece limpo e bem cuidado. Em muitas casas senhoriais, a apresentação visual das mucamas fazia parte do prestígio da própria família. A aparência dessa mulher negra é sofisticada em termos simbólicos e materiais. Ela expressa elementos fundamentais da cultura e da moda afro-brasileira. A vendedora de balas e a mucama usam, ainda, turbante e esse tipo de amarração possui forte relação com tradições africanas.
Porém, apesar de estar elegantemente bem vestida, portanto joias (ela usa brincos e colares dourados), a mucama está descalça, elemento revelador das tensões e da violência que existam naquela sociedade. É muito provável que essa mulher fosse escravizada, pois, de acordo com Silvia Escorel, “embora um cativo pudesse eventualmente usar sapatos (e os classificados de fugas no século XIX comprovam isso, sendo recorrente a advertência ‘costuma andar calçado’), era altamente improvável que um livre ou liberto arriscasse ter sua liberdade colocada em dúvida para conforto dos pés”.
