Um passeio elegante no jardim

Grupo de elegantes no Passeio Público, fotografia de Revert Henrique Klumb, c. 1860, Biblioteca Nacional. Clique na imagem e acesse a fotografia em alta resolução na Brasiliana Fotográfica e se divirta com os detalhes da elegância desse grupo no Passeio Público.

Os hábitos que por aqui chegaram junto com a corte de D. João VI se espalharam entre a classe dominante brasileira, especialmente a carioca, e reconfiguraram nossa sociedade. A fotografia que mostra um grupo de elegantes no Passeio Público, realizada por Revert Henrique Klumb por volta de 1860, é particularmente reveladora desse momento de reconfiguração social. Nesta imagem estão articuladas duas dimensões fundamentais da cultura visual oitocentista brasileira: a encenação da modernidade urbana, por meio da representação do corpo no espaço público; e a construção de tipos sociais.

O Passeio Público, primeiro jardim público do Brasil, construído sobre o aterro da lagoa do Boqueirão, foi desenhado por Mestre Valentim e inaugurado em 1783. O parque, que apresenta uma natureza belamente domesticada, passou por reformas em meados do século XIX, comandadas por Glaziou. É um cenário civilizado, projetado de acordo com princípios estéticos e arquitetônicos alinhados a modelos europeus, especialmente franceses, de urbanidade.

No século XIX, os jardins públicos eram locais privilegiados para ver e ser visto. A composição da imagem evidencia um espaço de circulação elegante, que servia como palco de exibição de uma cultura de moda. Passear significava participar de formas de sociabilidade urbanas marcadas pela observação mútua, pela teatralização do corpo e pela exibição da aparência, marcador de distinção de classe.

Mas, aquele passeio foi interrompido para que o fotógrafo pudesse marcar a cena. As figuras humanas foram cuidadosamente distribuídas na paisagem. É possível ver seis pessoas, cinco homens e uma mulher, que parecem organizados simetricamente, compondo com a geometria do jardim.

Claramente, as poses foram dirigidas pelo fotógrafo. As pessoas estão numa postura ereta, seus corpos estáticos. Talvez estivessem tensas com a longa exposição exigida pelas técnicas fotográficas da época. É visível a maneira como as aparências foram disciplinadas. Todos olham para a câmera e têm os braços próximos ao corpo. 

Os quatro elegantes foram postos na frente da cena. A única mulher está à direita. A coitada parece uma assombração do passado, vinda da época das rótulas e das gelosias, escondida debaixo da mantilha de renda. Não é possível ver seu rosto — e reparem que aqui estamos visualizando o Rio de Janeiro na década de 1860…

Um pouco atrás dela, está um homem trajado de maneira formal, só que sem sapatos. E lá atrás ainda é possível ver outra figura masculina. Esse jeito de arrumar as pessoas, valorizando os espaços vazios na distância entre elas, acaba por expressar a escala imperial do Passeio Público. Mas nos pés descalços não escapa à imagem da capital civilizada e cosmopolita a violência do sistema escravista que sustentava essa sociedade.

A figura central da fotografia de R. H. Klumb é um homem que usa uma cartola quase tão alta quanto o poste. Seu colete é bem ajustado, o que alonga ainda mais sua silhueta. Sua pose é muito parecida com a do cavalheiro à esquerda, os dois têm o joelho dobrado e o quadril levemente requebrado, apoiando a ponta do guarda-chuva no chão, como se ele fosse uma bengala, ao segurá-lo com a mão na cintura. Entre eles há um rapaz mais jovem e os três estão vestidos de maneira formal: paletó, gravata em laço, colete, calças compridas, cartola. Robustos sapatos de couro, com salto baixo.

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