O cinza dos burgueses

A partir da instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, foi inaugurado no Rio um processo de reeuropeização. Trata-se de uma etapa da história em que a sociedade abandonou valores e hábitos herdados do período colonial para adotar padrões, moralidade, arquitetura e costumes da Europa burguesa e industrial — valores burgueses que, por sua vez, ainda se firmavam em território europeu, remodelado política e economicamente pelas revoluções Industrial e Francesa.

Brasileiro em traje de corte e dignatário eclesiástico brasileiro, desenho de Henry Chamberlain, 1819, Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Entre o final do século XVIII e o início do XIX, ocorreu a transição da roupa aristocrática para a roupa burguesa. “O modelo do aristocrata espalhafatoso foi então substituído pelo do cavalheiro ‘correto’”. Se fosse possível resumir numa palavra, os modos de vestir da corte expressam o ócio, enquanto a roupa do homem burguês expressa trabalho. Duas lógicas diferentes de vestir. E uma mudança que afetou principalmente o guarda-roupa masculino.

Os valores da roupa masculina burguesa, que se materializam no terno, são o comprometimento com o trabalho e uma postura moral associada à discrição. Adota-se tecidos despojados, lisos ou discretamente estampados. Trata-se de uma ética e uma estética da supressão, do comedimento, da suposta renúncia ao supérfluo.

Chama atenção o paletó pesado desse homem, apesar de elegante, especialmente por causa da gravata discreta, em laço, e do colete alto e claro. Sua expressão transmite calma e segurança ao posar para o retrato. Fotografia de Christiano Jr. & Pacheco, c. 1870, Rio de Janeiro, Instituto Moreira Salles.

No Brasil, esse processo de aburguesamento empalideceu o uso de cores intensas e vibrantes nas roupas que, para Gilberto Freyre, era herança do “elemento asiático, o africano ou o indígena, cujo vistoso de cor se tornara evidente na paisagem, no trajo e nos usos dos homens”. Vermelhos e roxos soberbos foram trocados por cinzas sem graça. Tecidos pesados no calor escaldante do Rio. 

Aos poucos, são abandonadas as casacas policrômicas de que nos falava Luiz Edmundo, aquelas do tempo dos vice-reis, substituídas pela gravidade do preto e o cinzento chic. Passa a haver uma imitação mais passiva de roupas impróprias para o nosso clima. Mesmo numa cidade quente como o Rio de Janeiro, eram utilizados panos ásperos e opacos, como a casimira, um tipo de lã. Uma moda pensada para o frio, mas que o industrialismo europeu, já organizado em bases capitalistas, exportava como modelo de elegância universal. 

Conselheiro Torres Homem, fotografia de Justiniano José de Barros, c. 1865, Instituto Moreira Salles
Dr. João Jacintho de Mendonça, fotografia de Justiniano José de Barros, c. 1865, Instituto Moreira Salles
As unhas compridas e bem polidas do dr. Thomaz Antunes de Abreu causam certo arrepio; fotografia de Justiniano José de Barros, c. 1865, Instituto Moreira Salles
Retrato de homem, fotografia de Justiniano José de Barros, c. 1865, Instituto Moreira Salles

Os ilustres senhores que posavam no estúdio de Justiniano José de Barros, que ficava na rua do Ouvidor, 62, assemelham-se em seus modos de vestir. Usam casaca comprida e espessa, colarinho levantado, gravata em laço, colete e calça comprida. Além dos trajes, as poses obedecem à mesma coreografia de gestos econômicos. O fotógrafo oferecia objetos e cenários que ajudavam, por exemplo, na difícil arte de saber onde pôr as mãos. Até o dr. Policarpo Sesário de Barros, retratado com sua farda muito bem cortada e costurada, apoia a mão no espaldar da cadeira.

Dr. Policarpo Sesário de Barros, fotografia de Justiniano José de Barros, c. 1865, Instituto Moreira Salles

Houve, fatalmente, uma tendência a ampla padronização dos costumes, dos corpos e das aparências. As cidades modernas produziram a descaracterização e a uniformidade das multidões. À medida que o século XIX avança, afirma Gilda de Mello e Souza, os homens vão “renunciando às sedas, aos cetins, aos brocados que, aliás, há muito vinha empregando apenas nos acessórios, como no colete, e escondendo debaixo da austeridade do traje”.

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