Quilombo do Leblon

As camélias do quilombo do Leblon
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As camélias do Quilombo do Leblon
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O trecho acima é de uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ela faz referência a um dos mais importantes quilombos abolicionistas do fim do século XIX: o Quilombo do Leblon.

Por volta de 1881, o português José de Seixas Magalhães, dono de uma fábrica de malas de couro no centro do Rio, comprou algumas terras no então distante bairro do Leblon e ali passou a cultivar camélias.

Assim como seus amigos João Clapp, José Carlos do Patrocínio, Joaquim Nabuco e Joaquim Serra (criadores da Confederação Abolicionista, em 1883), Seixas era abolicionista e, para cultivar essas flores raras, recebia ajuda de inúmeros escravizados que, em fuga, buscavam refúgio no que ficou conhecido como Quilombo do Leblon.

Quilombo do Leblon no início do século XX. Fonte: site Quilombo das Camélias

Esse quilombo surgiu em meio à crise final do sistema escravista no Brasil, quando o discurso abolicionista ganhou adeptos entre os membros da elite intelectual e política do país e deu lugar ao aparecimento de um modelo novo de resistência, o quilombo abolicionista, diferente do modelo tradicional de resistência, o quilombo rompimento. O Quilombo do Leblon abrigava fugitivos e promovia reuniões e eventos abolicionistas, contando com aliados importantes como a princesa Isabel e Rui Barbosa. Suas camélias subversivas enfeitavam o Palácio das Laranjeiras, então residência da princesa e hoje sede do governo do Estado. A camélia era uma planta relativamente rara no Brasil, como a liberdade que se pretendia conquistar.

Capa da Revista Ilustrada em julho de 1888. Libertos pela lei Áurea levam camélias à princesa Isabel

No fim do XIX, quem usasse uma camélia na lapela ou a cultivasse no jardim de casa estava se declarando abolicionista. Além disso, conta-se que a flor era usada como maneira de identificar os possíveis aliados de quem buscava fugir da condição de cativo. Na assinatura da lei Áurea, de 13/05/1888, a Princesa Isabel recebeu dois buquês das raras flores: João Clapp lhe presenteou com um ramalhete artificial e José de Seixas entregou um buquê natural que, com toda sua simbologia, foram chamadas de Camélias da Liberdade.

José de Seixas Magalhães entrega camélias para a princesa Isabel. Revista Ilustrada, julho de 1888.