Cemitério dos Pretos Novos

Em 1996, o casal Mercedes e Petruccio dos Anjos, ao iniciar as obras de reforma em sua casa, na Rua Pedro Ernesto 36, se deparou com algo “estranho”. Ao perfurar o solo, os operários encontraram uma grande quantidade de ossos humanos misturados à terra. O Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC) foi comunicado e, a partir de então, arqueólogos e historiadores começaram a investigar o que havia ali.

Escavações após a redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos, 1996. Instituto dos Pretos Novos – IPN

​Esse é o início da história de resgate da memória do Cemitério dos Pretos Novos, que fazia parte do chamado Complexo do Valongo e reunia também o cais de desembarque de escravizados (Cais do Valongo), a rua que concentrava grande parte dos mercados (atual rua Camerino) e o Lazareto, hospital que tratava das enfermidades dos africanos recém-chegados.

De acordo com o viajante alemão G. W. Freireyss que visitou o Rio em 1814: “No meio deste espaço havia um monte de terra da qual, aqui e acolá, saíam restos de cadáveres descobertos pela chuva”. O cemitério não passava de uma cova rasa, em que milhares de corpos eram sepultados “à flor da terra”.

O cemitério dos Pretos novos visto de cima. Aquarela de Reinaldo Tavares, 2015. Instituto dos Pretos Novos – IPN

Com o adensamento populacional, a região do Valongo passou a ser alvo de críticas, mas elas não se dirigiam à preocupação com as pessoas escravizadas vivendo em condições degradantes e sim ao que os cidadãos não achavam agradável a seus olhos e aos de quem visitava o Rio: o mau cheiro e os miasmas gerados a partir da decomposição dos corpos e que eram apontados como responsáveis pelas doenças de uma cidade que buscava, a todo custo, modernizar-se.

Na década de 1830, o cemitério foi extinto, tendo sido, ele mesmo, ironicamente “enterrado” para ceder lugar ao progresso e à modernização que pediam passagem. A localização do Cemitério passou a ser incerta e foi somente em 1996 que o cemitério foi desenterrado, junto a inúmeras histórias dos mais de 350 anos que a escravidão durou no Brasil.

Em 2017 foi realizada uma pesquisa arqueológica em camadas mais profundas do terreno. A 1ª ossada completa encontrada foi batizada como Josefina Bakhita. Foto de Bruno Bartholini/ Agência Brasil

Atualmente, a casa de Mercedes e Petruccio é um memorial – o Instituto dos Pretos Novos – que é aberto à visitação e oferece diversos cursos relacionados ao tema, passeios históricos e, inclusive, um curso de pós-graduação sobre História da África e da Diáspora.