Primavera de sangue

Em setembro de 1909, como de costume, os jovens integrantes das Escolas Superiores do Rio de Janeiro celebravam o início da primavera. Estudantes de muitas capitais latino-americanas costumavam sair às ruas festejando a nova estação. Mas, no dia 22 de setembro daquele ano, a festa na rua deu lugar ao figurado cortejo fúnebre do comandante Souza Aguiar.

O protesto representava o enterro político do general, seguindo a expressão comum à época “morrer por ridículo”.  Pelas ruas do Centro, os estudantes carregaram um caixão com a frase “Morreu o general Souza Aguiar”. A provocação veio em resposta à violência com que o comandante geral da Força Policial do Distrito Federal tinha reagido às passeatas precedentes, principalmente a do dia anterior, na qual os estudantes tentaram parar um veículo da Força Policial.

Jornal O paiz, Rio de janeiro, n. 9120, p. 1, 23 de set. 1909.  Hemeroteca Digital – Biblioteca Nacional

O cortejo seguiu até o Largo de São Francisco de Paula, onde foi surpreendido e atacado por indivíduos à paisana, ligados à polícia. Dois estudantes foram mortos e vários outros feridos nas escadarias da Escola Politécnica, o que causou comoção em parte da população fluminense. Na repercussão do caso, uma divisão se formou. De um lado estavam os civis, os estudantes e seus apoiadores; de outro os militares e simpatizantes da força legalista.

Jornal O paiz, Rio de janeiro, n. 9120, p. 1, 23 de set. 1909. Hemeroteca Digital – Biblioteca Nacional

O contexto político brasileiro no ano de 1909 foi marcado pela disputa de poder entre militaristas e civilistas. Representados, respectivamente, pelo Marechal Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, candidatos nas eleições presidenciais de 1910. A tensão entre os dois grupos reverberou durante a campanha eleitoral, até mesmo após a sentença em relação aos militares acusados pelas mortes dos estudantes.

Brasão da Propaganda eleitoral Rui Barbosa ou a Revolução. Coleção Digital Campanha Civilista. Documento textual de arquivo Fundo Rui Barbosa, Série Miscelancia Panfletos

O julgamento foi marcado por intimidações aos jurados e testemunhas, por parte do Exército. E finalizado com a condenação dos réus, entre eles o sobrinho de Souza Aguiar, João Aurélio Lins Wanderley.

Este texto foi elaborado pela pesquisadora Helena Gomes do Projeto República (UFMG).