Missa de sétimo dia do Edson Luís

O assassinato do estudante Edson Luís pela Polícia Militar (PM), no dia 28 de março de 1968, desencadeou uma série de manifestações contra a ditadura por todo o país. A tensão era crescente e circulavam rumores de que seria decretado estado de sítio. No Rio de Janeiro, os ânimos estavam particularmente exaltados no dia 4 de abril, data em que seriam celebradas duas missas de sétimo dia em memória do estudante assassinado.

As duas missas de 7º dia, celebradas em memória de Edson Luís, mobilizaram a população carioca inconformada com o assassinado do jovem. Agência O Globo

As cerimônias aconteceriam na Igreja da Candelária, pela manhã e à noite, encomendadas respectivamente pela Assembleia Legislativa da Guanabara e pelo movimento estudantil. Antes do amanhecer, contudo, Exército, PM e Fuzileiros Navais ocuparam as ruas do Centro com um forte aparato bélico. Tanques, fuzis e metralhadoras foram usados para evitar qualquer tipo de manifestação.

Mesmo assim, centenas de pessoas chegaram para a primeira celebração, conduzida pelo Cônego Antônio de Paula Dutra e pelo Frei Elias Coqueto. Ao final da missa, as pessoas que saíam da igreja foram cercadas pela tropa montada, que avançou contra homens, mulheres e crianças, deixando muitos feridos.

Ao final da missa da manhã, a polícia montada investiu contra as pessoas que saíam da Igreja da Candelária. Arquivo Última Hora.

Para impedir a realização da missa das 18h, as forças de repressão transformaram o entorno da Candelária em uma praça de guerra. Bombas de efeito moral foram jogadas indiscriminadamente e viaturas tomaram as ruas, enquanto um avião sobrevoava o local. Mas a população não se intimidou e mais de 600 pessoas compareceram à cerimônia. D. Castro Pinto, vigário-geral do Rio de Janeiro, oficiou a missa com outros 15 padres, que tentaram amenizar o clima de tensão.

 Os barulhos dos cascos dos cavalos ressoavam pelo altar e bombas de gás lacrimogênio tornavam o ar irrespirável. Ao final da celebração, a multidão temeu sair. Para evitar uma nova tragédia, os sacerdotes protagonizaram a cena que se tornaria célebre: tomando a frente, de mãos dadas, criaram um cordão de isolamento entre os policiais e os civis. O ato, contudo, não conseguiu evitar o confronto. Como todo o bairro estava cercado, a multidão foi perseguida e muitos foram espancados e presos.

Calabouço – Sérgio Ricardo, 1973

Este texto foi elaborado pela pesquisadora Pauliane de Carvalho Braga do Projeto República (UFMG).