Comício da Candelária -Diretas Já

Vai passar – Chico Buarque, 1984.

Em 1983, a pressão popular pelo retorno da democracia após quase vinte anos de Ditadura Militar ganhou novo impulso: a união de partidos políticos, entidades sindicais, movimentos organizados e representantes de amplos setores sociais em apoio à emenda Dante de Oliveira. A proposta era a realização de eleições diretas para presidente no início de 1985. Esse foi o ponto de partida para uma série de debates e atos políticos que, nos meses seguintes, tomaram conta do país.

De janeiro de 1984 até o dia da votação da emenda, em 25 de abril, aproximadamente cinco milhões de pessoas saíram em protesto nas grandes cidades. Essa foi a maior mobilização popular da história do Brasil desde a campanha pela abolição da escravatura, em 1888.

Manifestação popular no Rio de Janeiro pelas eleições diretas para presidência da República. Rogério Reis, 17 de fevereiro de 1984. Acervo CPDoc FGV

No Rio de Janeiro, o slogan “Eu quero votar para presidente” estampava cartazes, faixas, bandeiras, bottons e camisetas amarelas. Em 10 de abril de 1984, a movimentação começou nas primeiras horas da manhã com endereço certo: a Avenida Presidente Vargas, no Centro. Por volta das 14h, roletas de ônibus e balsas foram liberadas para os manifestantes. Pouco a pouco, um milhão de pessoas se reuniu nas proximidades da Igreja da Candelária, onde um palanque foi erguido.

Leonel Brizola e Tancredo Neves discursam durante comício no centro do Rio de Janeiro pelas eleições diretas para presidência da República. Vidal da Trindade, 10 de abril de 1984. Acervo CPDoc FGV

A emoção deu o tom da maioria dos discursos, sempre acompanhados por aplausos, gritos de guerra e palavras de ordem a favor da democracia. O jurista Sobral Pinto e o governador Leonel Brizola foram alguns dos mais ovacionados. Ao final do evento, quando o locutor Osmar Santos anunciou a execução do Hino Nacional, a chuva que ameaçava cair desde cedo desabou. E os cariocas voltaram para casa com a alma lavada. Duas semanas depois, a emenda foi derrotada no Congresso Nacional. A festa definitiva seria adiada para 15 de janeiro do ano seguinte, data da eleição indireta de Tancredo Neves, primeiro presidente civil após o fim da ditadura.

Primeira página do jornal com manchete “Cidade faz por diretas seu maior comício”. O Globo, Rio de Janeiro, 11 de abril de 1984, n. 18417. Acervo O Globo.

Esse texto foi elaborado pelo pesquisador Bruno Viveiros Martins do Projeto República (UFMG).