Ares cada vez mais europeus

Nos anos 1870, a iluminação a gás e o abastecimento de água  chegaram a diversos bairros, contribuindo para a alteração dos padrões estéticos e a fisionomia da urbe carioca. As fronteiras da cidade se expandiram e começaram a excluir aquilo que não estivesse de acordo com a modernidade. Eram melhorias consideradas necessárias a uma capital que aumentava sua população, recebia a “fina-flor” da intelectualidade política nacional e se apresentava como centro político e cultural do Brasil. As edificações, sob forte influência europeia, estavam cada vez mais ecléticas, combinando o neoclássico a outros estilos arquitetônicos. No fim do século, a presença da art nouveau ainda era pequena e se anunciava nos detalhes: escadas, janelas, fachadas e vitrais anunciavam o novo. 

As casas de moda se multiplicavam, assim como as  livrarias e lojas de artigos importados. As confeitarias davam o tom do que era moderno, com suas fachadas e interiores requintados, como a Confeitaria Colombo, fundada em 1894. Mas, ao lado de todo esse movimento civilizatório e mesmo por causa dele, na área central da cidade houve aumento do número de vendedores ambulantes e de ofícios considerados menos prestigiosos. A cidade cambaleava entre seu passado colonial e o desejo de modernidade.

Interior Confeitaria Colombo. S/D. Rio de Janeiro,RJ. Brasiliana Fotográfica – Biblioteca Nacional

O Centro era o lugar do barulho, da multidão e do trabalho e, no século XIX, os mais abastados começaram a diferenciar esse ambiente do lugar destinado ao lazer e à família. A Cidade Nova e a Zona Sul começaram a ser mais habitadas, as casas ficaram cada vez mais amplas e sua arquitetura, mais sofisticada, incorporando elementos da art nouveau e determinando o que se pretendia para o futuro. Ainda assim, a cidade continuava mais parecida com as cidades orientais do que europeias. A tradição colonial havia deixado suas marcas e era preciso tentar apagá-las.

O comércio ambulante e a presença dos quiosques frustravam o desejo das elites, de construírem uma cidade europeia. Mercado da Praia do Peixe, anos 1890. Foto de Juan Gutierrez – Coleção Juan Gutierrez/ Brasiliana Fotográfica

Um dos exemplos mais emblemáticos eram os quiosques. Desde os anos 1870, os quiosques funcionavam como lugares de consumo dos trabalhadores braçais e classes menos favorecidas da cidade. Diante das péssimas condições de higiene e da grande concentração de pobres, as elites e a imprensa passaram a repudiar a existência dos quiosques.

A imprensa teve importante papel na construção da imagem de uma capital europeia, de acordo com a imaginação das elites cariocas: os jornais anunciavam as novidades e ajudavam a formar opiniões. A ideia de uma cidade da “razão” (letrada e ilustrada) começava a tomar forma.

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