A cidade da razão e do cálculo

Após a morte do Governador Gomes Freire, em janeiro de 1763, e a transformação da cidade na capital da Colônia, o processo de modernização do Rio de Janeiro, iniciado em 1733, se acentuou. D. Antônio Álvares da Cunha – o Conde da Cunha –  assumiu as funções de vice-rei (1763-1767), completando as obras de Gomes Freire. Sua principal contribuição foi a cobertura da Rua da Vala com lajes de pedra a fim de eliminar o cheiro fétido que incomodava a população.

Aqueduto da carioca em 1812 – pintura de George Cooke. O aqueduto foi reconstruído no governo de Gomes Freire de Andrade, em 1744.

Imbuídos dos ideais iluministas, o Marquês do Lavradio e o Conde de Figueiró (D. Luís de Vasconcelos e Sousa) foram os vice-reis que mais atuaram na modernização e ampliação da cidade. D. Luís D’Almeida Mascarenhas – segundo Marquês do Lavradio – assumiu o vice-reinado em 1769 e ocupou o cargo  por 10 anos. Durante esse período, ampliou a área urbana em direção ao Campo de Santana e à Cidade Nova, abrindo novas ruas, além de construir o chafariz da Glória. 

Marquês do Lavradio, segundo vice-rei da colônia.

A fim de retirar do lugar mais central da cidade o desembarque e o comércio de africanos escravizados (Largo do Carmo, atual Praça XV), em 1774 o Marquês do Lavradio determinou a transferência do porto para a região da Saúde, no Valongo. Mas, apesar de receber escravizados desde aquele ano, o cais do Valongo só foi efetivamente construído em 1811, sendo a única obra de infraestrutura portuária feita em pedra durante o reinado de D. João VI no Brasil.

Em 1779, D. Luís de Vasconcelos e Sousa  assumiu o cargo de vice-rei e complementou a urbanização do Largo do Carmo com calçamento, criação do cais de granito trabalhado – uma referência ao cais de Lisboa – e substituição do chafariz de Gomes Freire pelo Chafariz da Pirâmide (1789), construído pelo Mestre Valentim. Reformou a Casa da Alfândega e aterrou o Campo dos Ciganos (atual Praça Tiradentes), anexando-o à cidade e incentivando a construção de casas ali, transformando a paisagem da região.

Chafariz do largo do Carmo, projetado pelo Mestre Valentim, em 1860.

Vasconcelos e Sousa consolidou a expansão da área urbana em direção ao sul com o aterramento da Lagoa do Boqueirão da Ajuda – a partir do desmonte do morro das Mangueiras – e a construção do primeiro jardim público da Colônia, o Passeio Público. Todo o processo de aterramento, construção e embelezamento ficou sob a responsabilidade do Mestre Valentim da Fonseca e Silva e das dezenas de cativos prisioneiros do Calabouço, utilizados como mão de obra pelo poder público. 

A criação do Passeio estabeleceu a transição do estilo barroco para o neoclássico. Construído na forma de um quadrilátero murado e recortado por alamedas retilíneas, foi arborizado por espécies tropicais que garantiam sombra aos visitantes. Seguindo o eixo da alameda principal, o portão de entrada abria-se para a Rua das Belas Noites (depois Rua das Marrecas), que acabava no chafariz das Marrecas – outra obra de Mestre Valentim. No fim do jardim, à beira-mar, havia um terraço retangular projetado pelo capitão Francisco dos Santos Xavier – o Xavier das Conchas – pavimentado com lajes de pedra, cercado de muretas em forma de bancos de alvenaria, com encosto de azulejos. Em cada extremidade desse terraço havia um pavilhão: o primeiro dedicado a Apolo, com interior decorado com penas, e o segundo, a Mercúrio, decorado com conchas. Além das penas e conchas, o interior dos pavilhões recebeu a arte de Leandro Joaquim, que criou um conjunto de paisagens para retratar o cotidiano e as festas da cidade. O terraço foi demolido na gestão do prefeito Pereira Passos, no início do século XX, por ocasião da abertura da avenida Beira-Mar.

Terraço do Passeio Público, demolido no início do século XX. Imagem retirada do site Rio que passou.

Os demais vice-reis realizaram poucas obras de transformação urbana. D. José Luís de Castro (Conde de Resende), que assumiu o vice-reinado em 1790, enfrentou a tensão dos desdobramentos da Inconfidência Mineira e a iminência da eclosão da Conjuração Carioca, o que restringiu sua intervenção urbanística à substituição das lajes de pedra que cobriam a Rua da Vala, (atual Uruguaiana), introduzidas pelo Conde da Cunha (vice-rei de 1763 a 1767), e o aterramento do Campo de Santana para a criação de um espaço de lazer. Um de seus feitos mais importantes foi começar o processo de iluminação pública da cidade com lampiões a óleo de baleia.