A identidade carioca foi construída, em grande parte, a partir das religiosidades de seus habitantes. Os povos indígenas, primeiros habitantes da região, possuíam uma relação com o sagrado profundamente ligada à natureza, aos espíritos ancestrais e aos ciclos da vida. Com a chegada dos portugueses, o catolicismo foi imposto como religião oficial, servindo também como instrumento de dominação cultural e social. Em seguida, os africanos traficados trouxeram consigo uma rica diversidade de crenças e tradições, que passaram a se reorganizar no novo contexto urbano do Rio de Janeiro.
Essas tradições não permaneceram isoladas: o contato forçado, a repressão e a convivência cotidiana deram, ao longo do tempo, origem a processos de sincretismos religioso, visíveis por exemplo na associação entre santos católicos e orixás, nas festas populares e nas práticas de devoção. Assim, a religiosidade carioca se formou como um campo de trocas, resistências e adaptações, refletindo a própria história social da cidade e contribuindo para uma identidade marcada pela diversidade cultural e espiritual.
No Rio, há marcas e marcos desse encontro de religiosidades estão espalhados por todo o território, alguns de forma evidente, outros nem tanto. Alguns nem são sítios propriamente ditos, mas trazem uma carga sagrada tão importante que atuam como uma dimensão de encontro entre o mundo espiritual e o terreno. No longo (e contínuo) processo histórico de formação da cidade, muitos desses significados foram apagados ou reinterpretados. Esta galeria traz memórias de lugares importantes para as diversas crenças que contribuíram para o nosso jeito de ser.
Segundo a cosmovisão indígena, o mundo é compreendido de forma que a natureza, os seres humanos, os animais, os espíritos e os antepassados são integrados de forma inseparável. Diferentemente da visão ocidental, que tende a dividir o natural do social e do espiritual, as culturas indígenas concebem o universo como um sistema vivo e interdependente, no qual todos os elementos mantêm relações de reciprocidade e equilíbrio.
Nesse entendimento, a natureza não é vista como um recurso a ser explorado, mas como um conjunto de entidades dotadas de vida e agência espiritual. Rios, florestas, montanhas, animais e plantas possuem espíritos e desempenham papéis fundamentais na manutenção da ordem do mundo. Por isso, o respeito à terra e aos ciclos naturais é um princípio central, orientando práticas de caça, agricultura, alimentação e uso dos recursos.
Além de igrejas, o Rio é repleto de conventos e mosteiros. No período colonial, jovens de famílias abastadas se recolhiam nos conventos (as moças) e nos mosteiros (os rapazes) para se dedicar à vida de contemplação, meditação e isolamento. Os mosteiros que administravam escolas – algumas existentes até os dias atuais – já formaram muitas personalidades importantes da cidade.
Após a abolição da escravidão em 1888, os terreiros, casas de santo, ilês e demais espaços de fé afro-brasileiros assumiram papel central na reorganização da vida religiosa e cultural das populações negras no Rio de Janeiro. Vinculados a tradições como o Candomblé, a Umbanda e outras expressões de matriz africana, esses espaços foram fundamentais para a preservação de saberes ancestrais, como línguas rituais, musicalidades, danças, culinária sagrada e cosmologias herdadas de diferentes povos africanos, em um contexto marcado pela exclusão social e pelo racismo no período pós-abolição.
Localizados inicialmente na região conhecida como Pequena África, e posteriormente em áreas suburbanas e periféricas da cidade, os terreiros também funcionaram como importantes espaços de acolhimento comunitário. Além da dimensão religiosa, ofereceram redes de solidariedade, apoio espiritual e orientação social para populações historicamente marginalizadas. Mesmo enfrentando perseguições, criminalização e preconceito ao longo do final do século XIX e primeira metade do século XX — e, ainda hoje, sofrendo com o racismo religioso incrustado em nossa sociedade —, essas casas de fé resistiram e se adaptaram, garantindo a continuidade de suas tradições.
Ao longo do tempo, os espaços de religiosidade afro-brasileira consolidaram-se como elementos fundamentais da identidade cultural carioca, influenciando manifestações como o samba, o carnaval e outras expressões populares. No contexto urbano do Rio de Janeiro, os terreiros permanecem como guardiões da memória africana e da diversidade religiosa, afirmando a importância da ancestralidade e da resistência cultural na história da cidade.
Desde o início da colonização, a cidade do Rio de Janeiro consolidou-se como um espaço marcado pela presença de múltiplas expressões religiosas, refletindo os diversos fluxos populacionais, culturais e sociais que contribuíram para sua formação. Assim, aqui se instalaram denominações protestantes e pentecostais, bem como comunidades judaicas e islâmicas, entre outras, que passaram a integrar o cotidiano urbano e a paisagem cultural da cidade. A presença dessas religiões marcada também, por meio de templos, reafirma o Rio de Janeiro como um território historicamente marcado pela diversidade e pluralidade.
