Rubens Paiva

O engenheiro e deputado federal Rubens Paiva fez um discurso considerado histórico, na Rádio Nacional, em 1º de abril de 1964, incitando a população a resistir pacificamente ao golpe militar que se instaurara no país, no dia anterior. Filiado ao PTB, era um defensor das reformas de base sugeridas pelo presidente João Goulart, deposto pelo golpe. Poucos dias depois, seu mandato foi cassado e o ex-deputado teve de se exilar no exterior.

Rubens Paiva, do PTB – Divulgação/Memórias da Ditadura

Paiva já havia retornado ao Brasil alguns anos antes, quando em 20 de janeiro de 1971, seis agentes armados com metralhadoras invadiram sua casa, no Rio, e o levaram preso. O engenheiro saiu de casa dirigindo seu próprio carro. Nunca mais seria visto pela família. Conduzido ao Doi-Codi, na Tijuca, foi torturado e morto. Tinha 41 anos e cinco filhos. Eunice, sua esposa, e a filha Eliana, de apenas 15 anos, também foram detidas. A mulher permaneceu 12 dias incomunicável e a adolescente, 24 horas. Hoje, sabe-se que o assassinato de Rubens Paiva teve menos a ver com sua postura anti-ditadura do que com a sua atuação como deputado, durante a qual integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), a organização patrocinada pelo Departamento de Estado dos EUA que financiou políticos e jornalistas envolvidos na campanha contra João Goulart.

Durante muitos anos, as autoridades militares sustentaram uma farsa para justificar o sumiço do ex-deputado. Alegaram que ele estava sendo conduzido por agentes, de carro, quando teria sido sequestrado por guerrilheiros de esquerda. Apenas em fevereiro de 1996, 25 anos após a prisão, Eunice Paiva conseguiu a certidão de óbito do marido.

Página do Jornal O Globo – 22 de outubro de 1978

Eunice tornou-se um ícone no combate à ditadura e na luta por direitos humanos. Empreendeu uma incansável peregrinação em busca do marido, e formou-se em Direito para ter mais instrumentos com que atuar em movimentos como a luta pela Anistia, por Diretas Já e pela Constituinte. Morreu em 2018, no mesmo dia em que se completaram 50 anos da edição do AI-5. Marcelo Rubens Paiva, um dos filhos do casal, é escritor e já redigiu vários textos em que evoca o assassinato do pai pelos tempos de horror do período da ditadura brasileira.