Chacinas

Impossível elencar as chacinas ocultas sob a história oficial do Rio de Janeiro. São incontáveis, afinal, as matanças a integrar a trajetória da cidade que já cresceu assentada num grande genocídio: o dos negros escravizados e indígenas, muitos dos quais sucumbiam ainda na viagem atroz pelo Atlântico.

Na madrugada de 23 de julho de 1993, 72 crianças e jovens estavam nos arredores da Igreja da Candelária, alguns dormiam, outros circulavam pelas ruas vizinhas.  Era quase meia noite quando dois carros se aproximaram disparando tiros de fuzil. Seis meninos morreram no ato (Paulo Roberto de Oliveira – 11 anos, Anderson de Oliveira Pereira – 13 anos, Marcelo Candido de Jesus – 14 anos, Valdevino Miguel de Almeida – 14 anos, Gambazinho – 17 anos, Leandro Santos da Conceição – 17 anos). Depois, os carros seguiram pelas ruas do Centro em busca de outras vítimas: mais dois assassinados, Paulo José da Silva – 18 anos, Marcos Antonio Alves da Silva – 19 anos, e um sobrevivente, Wagner da Silva – hoje com 45 anos.

Ato em memória dos 22 anos da chacina da Candelária, 2015. Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Quatro policiais foram condenados (Marcus Vinicius Emmanuel, Nelson Oliveira dos Santos, Marco Aurélio Dias Alcântara, Arlindo Lisboa Afonso Junior) e três absolvidos. Vinte e cinco anos depois, todos os condenados estão soltos, vivos e circulando entre nós. Wagner da Silva, que sobreviveu aos quatro tiros do dia da chacina e mais quatro tomados no ano seguinte, em um atentado na Central do Brasil, foi obrigado a se mudar  para a Suíça sob os cuidados do Programa de Proteção a Testemunhas. Dos demais 63 sobreviventes, 39 já morreram de causas violentas. Entre eles, Tiago Veríssimo foi atingido por uma bala “perdida” no Complexo da Maré, Elizabeth Maia foi assassinada em frente a sua casa e Sandro do Nascimento protagonizou outro lamentável episódio da nossa história, o sequestro ao ônibus 174.

Movimento Mães de Maio – Missa em memória dos 22 anos da chacina da Candelária, 2015. Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Antes da Candelária, houve Acari, em 1990. E apenas um mês depois do fatídico dia 23 de julho de 1993, 36 homens encapuzados invadiram a favela de Vigário Geral para arrombar casas e assassinar, aleatoriamente, nada menos que 21 moradores, em represália à morte de policiais na região, alguns dias antes.

Não parou por aí. Baixada Fluminense, 2015: policiais à paisana circularam por diferentes bairros e mataram nada menos que 29 pessoas, entre elas crianças. Costa Barros, 2015: cinco jovens morreram ao ter seu carro metralhado por 111 tiros; eles haviam saído de casa para comprar um lanche, comemorando o primeiro salário de um deles.  Zona Norte, 2014: Claudia Silva Ferreira é arrastada por 250m após rolar do porta malas de uma viatura do 9º BPM. Ela havia sido baleada durante operação policial no Morro da Congonha, em Madureira.

Manifestação em memória dos cinco jovens assassinados em Costa Barros, 2016. Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil

Entre todas essas chacinas, há ao menos dois traços em comum: suas vítimas eram negras e pobres. Seus algozes, protegidos de alguma forma pela ideia de “autoridade” delegada pelo Estado.