Remo

As características naturais do Rio de Janeiro ofereciam as condições necessárias para a febre esportiva que tomou conta da belle époque carioca, a partir da década de 1840. A Baía da Guanabara, em especial, mostrava-se propícia para os diversos tipos de atividades aquáticas. Enquanto em Niterói a preferência recaiu sobre o iatismo, no Rio foi o remo que atraiu todas as classes sociais, com direito a torcidas organizadas. 

Regata na Lagoa, década de 1970. Ao fundo a favela da Catacumba. Site Saudades do Rio

Trazidos ao Rio de Janeiro por imigrantes ingleses, os esportes náuticos eram percebidos pela elite e pelos gestores públicos como “atividades civilizatórias” que deviam ser incentivadas. A formação de agremiações e o estabelecimento de um calendário organizado de eventos, somados à cobertura da imprensa, completaram o panorama favorável para sua difusão.   

Tudo começou com a disputa entre a vitoriosa canoa de pesca Cabocla, comandada pelo timoneiro Alecrim, e a canoa Lambe Água, comandada pelo timoneiro José Ferro, como registrado no ‘Jornal do Commercio de 20 de agosto de 1846. O circuito ia da Praia de Jurujuba, em Niterói, até a Praia dos Cavalos (hoje início da Avenida Antônio Carlos), no Centro do Rio. Ao longo da segunda metade do século XIX, vários clubes náuticos dedicados ao remo foram formados nesse trecho da baía. O Grupo dos Mareantes foi o primeiro, seguido pelo Club de Regatas Guanabarense, o Grupo de Botafogo, o Club de Regatas Cajuense e o Club Atlético Fluminense.  

Era comum, à época, a realização de regatas para celebrar datas importantes, seguindo a tradição das touradas: em 1888 aconteceu uma competição para celebrar a Abolição da Escravatura. Em 1892, a Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo patrocinou uma regata para anunciar o carnaval carioca do ano seguinte. Novos clubes de regatas foram surgindo – como Internacional, Boqueirão do Passeio, Botafogo, Fluminense, Vasco e Flamengo – e os circuitos se multiplicaram. O mais movimentado ia da Ponta do Calabouço, onde atualmente fica o Aeroporto Santos Dumont, até o Morro do Pasmado, no fim da Praia de Botafogo. 

 O sucesso do remo era tão grande no Rio de Janeiro que os jornais criaram colunas específicas sobre o esporte. Em 1900, Olavo Bilac reivindicou ajuda estatal às regatas, alegando serem “ferramenta civilizatória”. O prefeito Pereira Passos ouviu seus apelos e não só prestou auxílio financeiro como ainda construiu o Pavilhão de Regatas na Praia de Botafogo. Em 1902, foi criada a Federação Brasileira das Sociedades de Remo.

Estádio de regatas na Lagoa, década de 50. Site Saudades do Rio

A partir dos anos 1930, com a intensificação da circulação comercial na Baía de Guanabara e a febre dos banhos de mar, os clubes de remo se mudaram para a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde está localizado, ainda hoje, o Estádio de Remo da Lagoa, fundado na década de 50. O remo continua sendo um esporte largamente praticado no Rio, com competições regulares organizadas pela Federação de Remo do Estado do Rio de Janeiro. Grande parte dos participantes vêm dos clubes de regatas Flamengo, Botafogo, Piraquê, Vasco e Guanabara. 

Competições de Remo na lagoa Rodrigo de Freitas – Jogos Olímpicos Rio 2016. 13/08/2016 – Foto de Roberto Castro/ Brasil2016

Remadores e remadoras dos clubes do Rio de Janeiro vêm se destacando também em competições internacionais. Os irmãos e atletas do Flamengo, Xavier Vela Maggi e Pau Vela Maggi, conquistaram a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de 2019. Os remadores do Botafogo, Lucas Verthein e Uncas Tales Batista, levaram o bronze. Nos Jogos Olímpicos de 2012 (Londres) e 2016 (Rio) as remadoras cariocas Fernanda Nunes e Luana Bartholo fizeram parte da delegação brasileira.  

Mas nem só de medalhas e regatas internacionais vivem os remadores do Rio. Em 17 de junho de 2019, por exemplo, Fernanda Charbel e Marcela Carrocino remavam na Barra da Tijuca quando foram surpreendidas pelo salto de uma baleia-jubarte. Esporte e natureza: duas das mais fortes expressões deste Rio em movimento! 

Baleia Jubarte na Barra da Tijuca. Vídeo de Marcela Carrocino – junho de 2019
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