O Tamoyo (1823)

Davi Aroeira Kacowicz 

Em meados de 1823, caía o gabinete de José Bonifácio de Andrada e Silva. O outrora todo-poderoso ministro — responsável por uma devassa que exilou opositores e fechou jornais, em outubro de 1822 — era agora opositor de Pedro I, a quem tanto aconselhou nos anos da Independência. Desprestigiado, o demitido Bonifácio era alvo fácil para a imprensa carioca. Sendo os jornais o espaço onde seu nome era injuriado, José Bonifácio entrou para a arena e, em agosto, lançou seu próprio jornal, O Tamoyo

O nome indicava a direção que sua linha editorial apontava. A chamada “confederação dos tamoios” foi uma espécie de aliança nativa contra os invasores portugueses nos primeiros tempos da colonização. Tamoios foram os indígenas da costa do Rio de Janeiro — possivelmente também de outras regiões —, tupinambás em sua grande maioria, que ofereceram grande resistência aos portugueses que buscavam se assentar na baía de Guanabara.  

Figura 1 — Icon Regis Quoniambec [Representação do Rei Cunhambebe, um dos líderes dos tamoios], ilustração da obra Monstrorum Historia: Cum Paralipomenis historiae omnium animalium, de Ulisse Aldrovandi. 1642. Wikimedia Commons 

A opção por esse título, portanto, buscou resgatar no passado uma ideia que representasse o sentimento nacionalista (e antilusitano), que José Bonifácio passou a alimentar ao longo de 1823. Na primeira edição, um artigo apontava algo como uma “linha editorial” d’O Tamoyo, o nativo não é bravio. As aldeias eram “todas igualmente livres, todas independentes; e a convicção íntima da sua liberdade era tão forte neles que muitos preferiam a morte à bárbara escravidão Europeia”. No texto, José Bonifácio se referia aos “primeiros habitantes” deste país; mas implicitamente o artigo gritava aos brasileiros de 1823. O nacionalismo retórico de Bonifácio se tornou uma das principais características de seu periódico. 

O Tamoyo tinha como princípio defender a honra de José Bonifácio. Fez isso, ao mesmo tempo defendendo-se de acusações e contra-atacando rivais. Além disso, construía uma (auto)imagem valorosa de sua participação no processo de emancipação política do Brasil. As páginas do Tamoyo são, em larga medida, responsáveis pela memória de Bonifácio como o “herói da Independência”.  

Figura 2 — O heróe da independência do Brazil: José Bonifácio de Andrade e Silva: dedicado a teus amigos, autor não identificado. 1832. Fundação Biblioteca Nacional [icon323485] 

O jornal apoiava os projetos andradinos, o que quer dizer que também era suporte para sua atuação e a dos irmãos de José Bonifácio — eles também, homens públicos —, Antônio Carlos e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, na Assembleia Constituinte.  

Seu conteúdo era, em geral, um único artigo, corrido ao longo de suas quatro páginas. No texto, comentários direcionados a um fato político da semana. Inicialmente, o periódico saía do prelo às terças, mas é possível que, devido à uma popularidade que o jornal ganhara, sua periodicidade também aumentou, sendo impresso três vezes por semana.  

Figura 3 — Primeira edição d’O Tamoyo. 12 de agosto de 1823.  
Fundação Biblioteca Nacional  

Ao que consta, saiu n’O Tamoyo a primeira entrevista da imprensa nacional. O entrevistado era, nas palavras do jornal, um “raro e ótimo patriota que é o nosso Velho do Rocio” — ou seja, ninguém menos que o próprio José Bonifácio. Fazendo uso desse estilo narrativo, a entrevista era uma autopropaganda eficiente, já que o jogo de perguntas e respostas de cartas marcadas é uma vitória garantida ao entrevistado. “Então está você decidido a sofrer calado o que um bando vil de abutres intrigantes e velhacos continue a se precipitar sobre você como se fosse um cadáver de esterqueira? ‘Sim’, me respondeu ele, ‘porque não quero alterar o meu sossego, que é a coisa mais substancial que há neste mundo”.  

José Bonifácio disse publicamente que seu plano era aposentar-se para dedicar mais tempo aos estudos — era essa, de fato a sua profissão: cientista —, em sua cidade natal, Santos. Se eram mesmo esses seus objetivos, seus planos fizeram água. 11 novembro de 1823 veio a ser a data do último número d’O Tamoyo. Na madrugada desse para o dia seguinte, a Assembleia Constituinte foi fechada por Pedro I, num evento que passou para a história com o nome de “A Noite da Agonia”. Dentre os nomes que foram sentenciados, José Bonifácio e os irmãos receberam o exílio como punição, e a oposição dos Andrada e Silva a d. Pedro recebeu um basta.  

A vida pública de José Bonifácio e os irmãos ainda ganharia novos capítulos com o retorno para o Brasil. Antônio Carlos e Martin Andrade atuaram como deputados provinciais — mas também inseridos na política de âmbito federal. E em novo episódio da conturbada relação com o imperador, Pedro I incumbiu pessoalmente a José Bonifácio a tutoria de seu filho, futuro Pedro II — à época, com apenas 5 anos. O Tamoyo, contudo, jamais circularia novamente.

Referências Bibliográficas 

DOLHNIKOFF, Miriam. José Bonifácio. O patriarca vencido. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 

ENDERS, Armelle. A história do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2015. 

LUSTOSA, Isabel . Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência, 1821-1823. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 

NALINI, José Renato.  Muitas vidas em uma só: José Bonifácio de Andrada e Silva. São Paulo: Academia Paulista de Letras; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2020. 

PEDREIRA, Jorge Miguel Viana; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 

SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Maud, 1999.