O “sertão” se urbaniza

Nos primeiros anos, o “sertão” carioca era semeado de charcos, brejos e alagados que foram sendo aterrados e secos, abrindo caminho para a expansão da cidade. A região era conhecida como Campo da Cidade, depois Campo de São Domingos e foi renomeado como Campo de Santana por ter sido o terreiro da Igreja de Santana, local de afluência de devotos em 1753. 

O Campo de Santana, antigo Campo da Cidade, e sua Praça de Touros  (1818). Obra de Franz Josef Frühbeck.

O Campo era lugar de diversão, com circos e touradas, e também depósito de lixo. Com o tempo, parte dele foi utilizada para construções icônicas, como o Palácio do Conde de Arcos (sede do Senado do Brasil durante cem anos) e a Estação da Central do Brasil. Também ocuparam o Campo o Comando do Exército, em 1811, a Prefeitura, o Corpo de Bombeiros e muitos outros prédios públicos. A região foi palco de momentos marcantes da história do país, como a aclamação do imperador D. Pedro I e a Proclamação da República. No final do século XIX, o Campo foi modernizado por Glaziou e ganhou uma paisagem romântica. 

Proclamação da República em frente ao antigo quartel-general. Óleo sobre tela de Benedito Calixto, 1893. Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Mas nem tudo são flores na nova cidade barroca do Rio de Janeiro. As diferenças sociais se acentuaram. Os sobrados da rua Direita contrastavam com as casas baixas do Campo da Cidade. O Rossio Grande se urbanizou. Ciganos e judeus pobres passaram a  ocupar as áreas de brejos e pântanos para além do Campo de Santana. Uma outra cidade foi se desenhando na periferia da cidade barroca. A miséria e a pobreza ganharam espaço e determinaram um processo de exclusão tanto ou mais radical do que aquele que aconteceu com a mão de obra africana no pós-abolição. Compreendida como desqualificada pelas elites, essa população foi considerada pária no espaço do Rio. Construções em palafitas cresciam nessa área de mangues e a pesca passou a ser a alternativa de sobrevivência.

O Campo de Santana  após a modernização de Glaziou. “Lago e ponte em arco na praça da República”, foto de Vicenzo Pastore, c. 1910. Instituto Moreira Salles.