Ganhadeiras e resistência
Ao longo de todo o Império e início da República, ao lado do comércio estabelecido das lojas onde se comprava mercadorias importadas da Europa — privilégio de estrangeiros, portugueses e luso-brasileiros —, havia o comércio ambulante, que acompanha a vida urbana carioca desde o século XVI. Depois da chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808, a cidade cresceu, o consumo se diversificou e nas ruas se via cada vez mais tabuleiros e gamelas repletos de doces, frutas, quitutes, tecidos, objetos domésticos e pequenas mercadorias, apoiados sobre as cabeças de pessoas negras. Em sua maioria, mulheres, que usavam rodilhas e turbantes de todos os tipos.

Ainda no tempo dos vice-reis, na porta do Passeio Público era possível ver mulheres negras vestindo a blusa “cabeção”, com seus largos decotes e adornadas com renda de bilro. Usavam os tradicionais turbantes, que indicavam, entre outras coisas, a filiação de santo e/ou sua origem étnica. “Essas vendedoras, escravas e libertas, negras e mestiças, ofereciam refresco de abacaxi, ou aluá de arroz fermentado. Sua clientela eram os visitantes que desembarcavam das cadeirinhas, serpentinas ou cadeiras de aluguel”, escreveu Silvia Escorel.

Nas cidades do Brasil oitocentista, a maior parte dos trabalhadores de rua eram pessoas negras escravizadas e libertas, africanas e seus descendentes, personagens centrais da economia urbana. Segundo João José Reis, participavam de um sistema de ganho que possibilitou que muitos comprassem suas alforrias. Combinavam com seus senhores o repasse de uma quantia fixa, geralmente semanal, e podiam ficar com o que sobrasse. Daí os nomes ganhadeiras e ganhadores. “Os homens se ocupavam em geral do carrego de pessoas (em cadeiras de arruar) e objetos de todo tipo e tamanho, enquanto as mulheres deambulavam pelo espaço urbano a vender toda sorte de mercadoria, entre outros afazeres que as obrigavam a sair às ruas”, diz Reis.
Vendia-se de tudo um pouco: doces, bolos, angu, cestos, milho, frutas, capim, sapé, aves, carvão, hortaliças, ervas, roupas, tecidos, bijuterias, rendas e fitas, serviços de costura, bordado e todo tipo de cuidado com o vestuário. Nas ruas, por meio dessas atividades, circulavam mercadorias e códigos de aparência.
Aos olhos dos estrangeiros que passaram pelo Rio de Janeiro no século XIX, era impressionante a diversidade de ofícios que africanos escravizados e libertos exerciam nas ruas e nos mercados. A inglesa Maria Graham, que esteve no Brasil na década de 1820, relatou que muitos trabalhadores “ao ganho” no Rio carregavam desde sacas de café e sal até cargas assustadoramente pesadas, como pianos.

Em 1828, o médico e capelão da colônia britânica no Rio de Janeiro, reverendo Robert Walsh, também registrou a intensa presença de homens e mulheres negros no comércio ambulante. O reverendo informa que a maior parte eram pessoas livres, que lucravam com as vendas em benefício próprio. Por mais que Robert Walsh admire e elogie esses trabalhadores, o “espanto” com o cuidado com a aparência não deixa de expressar uma opinião racista. De todo modo, seu relato é importante porque assinala a centralidade de africanos nas trocas comerciais:
“Nossa atenção foi atraída por homens e mulheres apresentando quantidades de artigos para vender; alguns em cestas, outros em tabuleiros ou caixas carregadas na cabeça. Pertencem a uma classe de pequenos comerciantes, muitos dos quais vendem em casa a sua mercadoria, mas o maior número é empregado dessa forma, como itinerante. Alguns ainda estavam na condição de escravos, e levavam todas as noites determinada soma a seus proprietários, como produto do trabalho diário. Mas fui informado de que grande proporção era livre, e exercia esse pequeno comércio para si mesmo. Eram todos muito limpos e cuidadosos com suas pessoas e tinham um decoro e senso de respeitabilidade superior ao dos brancos, da mesma classe e profissão. Todos os seus artigos eram bons, e bem arrumados e vendiam-nos com simplicidade e confiança, não querendo tirar vantagem dos outros, nem suspeitando que podiam ser explorados”.

É muito comum encontrar, nas obras de arte que registram as quitandeiras, vendedoras ambulantes e ganhadeiras, mulheres que trabalham carregando os filhos amarrados ao corpo com pano da costa. Essa quitandeira desenhada por Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive (imagem acima) leva uma gamela enorme apoiada na cabeça, equilibrando meia dúzia de coco verde. Além da criança atada às costas, ela caminha carregando um feixe de cana-de-açúcar.
Jean-Baptiste Debret, ao relatar as mulheres negras livres que viviam de suas atividades, conta que “quando a vendedora de aluá se dedica também ao comércio de cana-de-açúcar, ela a vende em pedaços (cana em rolos), o que permite obter-se com mais facilidade o caldo. Esses pequenos pedaços, de um verde esbranquiçado e transparente, convidam o transeunte a satisfazer-se, pois a cada dentada enchem-lhe a boca de um suco abundante, inodoro e muito doce”.
É engraçado porque o verde esbranquiçado e convidativo da cana aparece também na cor da saia da quitandeira. Seu traje, apesar de simples, é bonito e elegante. A combinação do pano da costa, com listras brancas e vermelhas, e a saia ampla compõe uma figura com forte apelo estético. Mesmo que o artista não tenha registrado seu nome e essa mulher tenha sido fixada num tipo ou numa categoria, a “quitandeira”, sua presença é imponente e altiva.
A mulher retratada nos faz lembrar que a moda brasileira também tem sua origem no corpo e nos modos de vestir de pessoas negras – algumas delas escravizadas, que trabalhavam no comércio “de ganho” e juntavam dinheiro para comprar sua alforria. O estilo e a elegância dessa quitandeira não pertencem ao universo da moda aristocrática, dos vestidos de baile ou das sedas importadas. Ainda assim, sua aparência está inscrita numa cultura de moda.
Dentro de um sistema de profunda coerção, embora a circulação não fosse sinônimo de liberdade, a presença das ganhadeiras vestiu a cidade com suas saias estampadas, seus panos da costa, seus cestos e suas mercadorias, espalhadas nos tabuleiros. Ainda que a administração do próprio tempo fosse parcial e o escravizado estivesse subordinado ao senhor, as formas de convivência e as redes de relações tecidas nas ruas ofereciam algumas brechas que possibilitavam contatos, pequenos ganhos e vida social.
No Rio de Janeiro, em Salvador, no Recife e em outros centros urbanos, essa pequena margem de manobra dentro de uma estrutura escravista e opressora permitiu que mulheres negras que atuavam como ambulantes e ganhadeiras utilizassem tecidos, turbantes e adornos como estratégia de autoafirmação e resistência, desafiando a tentativa de apagamento de suas identidades. As mulheres africanas e suas descendentes marcaram presença na vida da cidade e ocuparam lugar de destaque na moda carioca.

Em seu livro Negras maneiras de vestir, a pesquisadora Hanayrá Negreiros narra que encontrou menções a costureiras negras em anúncios nos jornais oitocentistas. “Em alguns casos”, ela afirmou, “encontrei anúncios que divulgavam os serviços de costura oferecidos por essas mulheres, ainda em condição de trabalhadoras escravizadas”. Nos jornais, eram anunciadas “perfeita costureira, rendeira e engomadeira”, “uma escrava perfeita costureira e engomadeira”, “uma preta cativa, perfeita engomadeira e costureira”.
O vestir das ganhadeiras – que se materializa nos desenhos dos viajantes, nas fotografias, no comércio de itens de moda, na presença nos jornais – conecta as mulheres negras “ao ofício da costura e ao cuidado com as roupas, desafiando a narrativa de que o domínio sobre o vestir no Brasil oitocentista pertencia sobretudo às modistas francesas, em especial às radicadas no Rio de Janeiro”.
Nos primeiros anos do século XIX, Debret já observava que “na classe das negras livres, as mais bem-educadas e inteligentes procuram logo entrar como operárias por ano ou por dia numa loja de modista ou de costureira francesa, título esse que lhes permite conseguir trabalho por conta própria nas casas brasileiras, pois com o seu talento conseguem imitar muito bem as maneiras francesas, trajando-se com rebuscamento e decência”.

De acordo com a historiadora Juliana Barreto Farias, “os naturalistas Luiz e Elizabeth Agassiz, chegados ao Rio em 1865, foram seduzidos pelo ‘exotismo’ e a distinção das quitandeiras minas, que sempre traziam ‘a cabeça coberta com um alto turbante de musselina e um longo xale de cores brilhantes, ora cruzados sobre os seios ora negligentemente atirados ao ombro’”. É da mesma época a fotografia de Christiano Junior que retrata uma escravizada “de ganho”, que usa pano da costa, saia longa e estampada, pulseiras, anéis, brincos e um belo turbante.
Sabe-se que essas imagens eram vendidas para estrangeiros, aqueles que passavam pelo Rio de Janeiro ou em exposições fora do Brasil. Como foi o caso do conjunto de fotos produzido por Christiano Junior em que está incluído o retrato dessa mulher. Depois de serem exibidas na Exposição Internacional do Porto, ainda em 1865, as “Photographias de costumes brazileiros” foram oferecidas, como um presente, a D. Fernando, rei de Portugal.
Apesar de retratarem atividades de trabalho recriadas no estúdio do fotógrafo, sem que houvesse o objetivo de “representar o indivíduo ou a pessoa em si”, a força da presença desses africanos acaba por desmontar o propósito de submissão dessa prática. A exemplo da “escrava de ganho”, a riqueza do traje das ganhadeiras, normalmente identificadas com uma silhueta elegante e de porte altivo, tornou-se uma marca da paisagem urbana da cidade.
Para Hanayrá Negreiros, ao rastrear “tecidos, modelagens, ornamentos e os circuitos de produção e circulação dessas vestimentas”, a moda usada por essas mulheres, que circulava em pregões e deslocamentos pelas ruas, “desestabilizara a antiga ideia de ausência de referências negras nos estudos sobre a história da moda no Brasil”. Moda afro-brasileira, ela ressalta.
