Cais do porto (largo do Paço)

Davi Aroeira Kacowicz

Em outubro de 1820, o rei d. João VI recebeu a informação de que uma revolução, liderada por comerciantes liberais, tomara o controle das cidades mais importantes de Portugal, Porto e Lisboa. As informações davam conta de que os revoltosos determinaram a abertura de uma assembleia constituinte, que regeria todo o reino. Os “vintistas”, como eram chamados, prometeram lealdade à casa dos Bragança; o rei, por sua vez, deveria jurar obedecer à carta magna. Porém, a coroa do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves vestia a cabeça de um monarca acostumado aos modos absolutistas de governar.   

Em outras palavras, as informações que aportavam no Rio de Janeiro cheiravam a problemas para uns, mas excitava a mudança em outros. A notícia era endereçada ao rei, mas rapidamente ganhou as ruas. E um bom palpite para dizer onde começou o disse-me-disse é o cais do porto, nos limites do largo do Paço (atual praça XV).  

Figura 1 — Vista para o Largo do Paço. Jean-Baptiste Debret, 1839.  
Fundação Biblioteca Nacional [icon393054_137] 

Antes dos sucessivos aterros darem à praça XV sua presente fisionomia, por muito tempo, ali era a principal porta de entrada para os viajantes que chegavam ao Rio de Janeiro. As naus que levavam viajantes e mercadorias, também traziam ideias. Notícias e impressões chegavam à corte do reino. Vinham cartas particulares, decretos oficiais, jornais e panfletos variados. Livros e publicações proibidas, quando não apreendidas, também aportavam bem no nariz do poder real. Mas além da letra no papel, as novidades quentíssimas corriam na boca miúda da marujada. Os mais conversados eram vetores a espalhar as novas da vez em terra firme. E poucos lugares eram tão movimentados no Rio de Janeiro como aquela região.  

O chafariz construído por Mestre Valentim era ponto de encontro movimentado, desde que foi levantado, em 1779. Projetado por um dos mais habilidosos arquitetos de que se tem notícia nos tempos coloniais, a grande fonte é um bloco único, lavrado em granito, cheio de detalhes decorativos. Ficava em frente aos acessos utilizados para o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias em canoas e outras pequenas embarcações, capazes de se aproximar das margens da cidade. 

Figura 2 — Chafariz do largo do Paço Imperial. Louis Pierre Alphonse Bichebois, c.1840. Museu Imperial 

Só podemos imaginar o intenso vai-e-vem e vozerio de quitandeiras e demais vendedores ambulantes, negros de ganho exercendo as mais variadas funções, funcionários públicos, os marinheiros recém-chegados, estacionados ou de partida, tropeiros, pequenos e ricos comerciantes, soldados e ministros. O artista francês, Jean-Baptiste Debret — principal responsável pelos registros visuais do Rio de Janeiro entre as décadas de 1810 e 1830 — assim detalhou uma cena cotidiana do local: 

Por volta das quatro horas da tarde que se veem os pequenos capitalistas chegarem de todas as ruas adjacentes ao largo do Palácio, para se sentarem nos parapeitos do cais, onde têm o costume de vir sentir à fresca até a Ave Maria (das seis às sete horas da tarde). Em menos de meia hora todos os lugares estão tomados. 

Figura 3 — Os refrescos do Palácio. Jean-Baptiste Debret, 1839.  
Fundação Biblioteca Nacional [icon326377_092] 

 Onde há uma pequena multidão, há também uma boa dose de prosa. E, nos anos da Independência, difícil pensar que a política do reino não fosse assunto conversado entre a população que diariamente lotava o porto do palácio. Assim como a rua Direita (atual Primeiro de Março) — uma das vias que desembocava no largo —, o cais próximo ao Paço havia se tornado um espaço onde a política era assunto público, a imaginação pululava e as ideias ganhavam tração própria. E no processo de independência do Brasil, espaços como o cais do Paço eram ambientes formidáveis para que o povo tomasse o gosto por debater e pensar os destinos do seu país e da sua gente. 

Referências Bibliográficas 

ENDERS, Armelle. A história do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gryphus Editora, 2015. 

MARSON, Izabel Andrade; OLIVEIRA, Cecília Helena L. de Salles (Orgs.). Monarquia, liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860. São Paulo: Edusp, 2013. 

PEDREIRA, Jorge Miguel Viana; COSTA, Fernando Dores. D. João VI: um príncipe entre dois continentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 

SHULTZ, Kristen. Versalhes tropical: Império, monarquia e a Corte real portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.