Ana Paula Araújo e o Rio de Janeiro

Jornalista, autora dos livros Abuso — A Cultura do Estupro no Brasil (2020) e Agressão — A Escalada da Violência Doméstica no Brasil (2025), e apresentadora de TV, Ana Paula Araújo, nasceu no Rio de Janeiro, em São Cristóvão, mas foi criada em Juiz de Fora, Minas Gerais. Durante a infância, vinha sempre ao Rio de férias — temporadas na casa de uma tia na Vila da Penha, idas a Ramos, praias em Saquarema e Rio das Ostras. Até o dia em que voltou aos dezoito anos, para ficar.

Em Juiz de Fora, apresentava um programa musical numa rádio local, tarde da noite, sem que os pais soubessem. Quando desembarcou no Rio de volta, trazia na bagagem a disciplina e a voz treinada no microfone de madrugada. Conseguiu dois empregos ao mesmo tempo — de manhã na Rádio Globo, à tarde na TV Manchete — e foi morar no Flamengo, em São Conrado e no Leblon. A cada mudança, um novo pedaço da cidade se revelava.

Antes de ser a âncora da Globo que o Brasil inteiro conhece, ela foi uma repórter que viu o Rio de ponta a ponta, dando voz a gente que raramente aparecia na televisão. Na Rádio Globo, Ana Paula herdou a função de um repórter veterano que se aposentou: durante dois anos, chegava cedo para pegar o Amarelinho (carro de reportagem) e seguir direto para a Zona Oeste. Bangu, Campo Grande, Santa Cruz. Batia de porta em porta, conversava com moradores, descobria os problemas de cada bairro. Esse mergulho cotidiano na periferia da cidade moldou seu olhar.

Depois vieram o RJTV, o Bom Dia Rio, o Bom Dia Brasil. Coberturas de Carnaval e de Réveillon. E, em novembro de 2010, a cobertura que marcou sua carreira e a história recente do Rio: a ocupação do Complexo do Alemão. Foram cerca de dez horas ininterruptas no ar, narrando, em tempo real. A cobertura rendeu à equipe da Globo o primeiro Emmy Internacional de jornalismo.

Mas a experiência teve um grande impacto na jornalista. “Eu acho extremamente possível acabar com a violência no Rio de Janeiro , muito possível mesmo”, diz ela. Sabe que o desejo soa utópico, mas insiste nele com a teimosia de quem viu, ao vivo, que a cidade pode ser diferente, mesmo tendo testemunhado, em 2025, uma nova operação policial no Complexo do Alemão que se transformou em uma violenta chacina.

Fora das telas, Ana Paula descobriu outro Rio — o Rio do corpo em movimento. Seu lugar preferido para correr é o Jardim Botânico, onde é sócia há mais de vinte anos, desde que ficou grávida da filha Melissa. Lá, o chão é de terra batida, o calor dá uma trégua, e há trechos em que parece que alguém ligou o ar-condicionado debaixo das árvores.

Ela também adora as ruas do Rio antigo — a Gonçalves Dias, a Rua do Ouvidor —, a Confeitaria Colombo, a Cavé e, sobretudo, o Theatro Municipal. Qualquer coisa que tenha no Municipal, ela vai. Durante algum tempo, frequentou aos sábados um curso de regência na Escola Villa-Lobos e, de lá, ia comer na Colombo. Se pudesse escolher uma peça para tocar no palco do Municipal, escolheria Bachianas Brasileiras No. 4 de Villa-Lobos.

O piano, aliás, nunca saiu de cena. Ana Paula ainda faz aula toda semana, toca em apresentações de fim de ano da professora, em festas na casa de amigos e em saraus.

Para Ana Paula, o que define o Rio de Janeiro não é a paisagem — ou não é só ela. “O que unifica o Rio de Janeiro é a personalidade do carioca, o jeito de ser, o jeito de se relacionar.” O jeito solar, acolhedor, brincalhão. A energia que atravessa da quadra de escola de samba à praia da Zona Sul. Talvez por isso acredite que é tão importante conhecer o livro Cidade Partida, do jornalista Zuenir Ventura. Mas também se divertir com o filme de animação Rio, por mostrar o lado solar e alegre que a violência não consegue apagar. E porque os bichos do filme, diz ela, realmente são a cara dos cariocas.

Ana Paula carrega três desejos que não cabem numa reportagem: enterrar toda a fiação elétrica e as gambiarras dos postes, resolver os alagamentos da cidade de forma estrutural (especialmente face aos eventos climáticos extremos) e levar o metrô para muito mais bairros, para que o Rio se integre de verdade e as pessoas deixem de depender do carro para atravessá-lo.

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