Vestes e violência

Negra escrava fujona com gargalheira e grande pote de barro à cabeça, Joaquim Cândido Guillobel, 1814. Instituto Itaú Cultural
Preta vendendo agôa, Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive, 1841. Instituto Moreira Salles

As imagens representam mulheres negras escravizadas, uma delas identificada como “escrava fujona com gargalheira e grande pote de barro à cabeça”. São cenas profundamente violentas, embora construídas dentro de uma linguagem aparentemente serena e descritiva, típica da iconografia do século XIX. A maneira como essas mulheres foram apresentadas está diretamente ligada aos mecanismos de controle do corpo escravizado.

Os trajes são simples e reduzidos. Aquela desenhada por Guillobel veste um tecido, pintado na cor amarelo-ocre, amarrado no corpo de modo a formar uma blusa, uma saia simples e está descalça. O tecido que cobre parcialmente seu busto deixa ombros, braços e parte do colo expostos.

Nos dois casos, as saias, cujo comprimento abaixo dos joelhos oferece alguma cobertura, parecem confeccionadas em pano grosseiro. Entretanto, o elemento mais importante de suas aparências é a gargalheira, essa espécie de colar de ferro preso ao pescoço. Esse objeto não é um acessório e nem um adorno, mas, sim, um instrumento de tortura e controle.

As gargalheiras eram usadas especialmente em pessoas escravizadas consideradas fugitivas ou rebeldes. Tinham múltiplas funções: impedir novas fugas, provocar dor e desconforto, humilhar publicamente, dificultar movimentos, e tornar o corpo imediatamente identificável. O pintor francês Jean-Baptiste Debret, que viveu alguns anos no Rio de Janeiro no início do século XIX, assim descreve esse abominável castigo:

“O colar de ferro tem vários braços em forma de ganchos, não somente com o intuito de torná-lo ostensivo, mas ainda para ser agarrado mais facilmente em caso de resistência, pois apoiando-se vigorosamente sobre o gancho a pressão inversa se produz do outro lado do colar, levantando com força o maxilar do preso; a dor é horrível e faz cessar qualquer resistência, principalmente quando a pressão é renovada com sacudidelas”.

O impacto visual é brutal: o pescoço torna-se local explícito de dominação e o corpo  exibe materialmente a violência da escravidão. Os grandes potes que as mulheres carregam sobre a cabeça também fazem parte de um repertório da cultura material que associa seus corpos ao trabalho forçado.

As posturas das mulheres, muito parecidas, também são significativas. Aquela que foi chamada de fujona sustenta o pote com uma mão, enquanto a outra repousa na cintura, seus braços são musculosos e o corpo permanece ereto, apesar da gargalheira. Mesmo submetida à violência extrema, a figura mantém equilíbrio e firmeza. Aliás, um aspecto importante a ser observado sobre essas imagens é como a violência está suavizada pela composição elegante do desenho, pela neutralidade do fundo e pela postura quase clássica das personagens.

Frequentemente, imagens do Brasil colonial e imperial representaram a escravidão e seus instrumentos de punição com olhar quase documental. Ao mesmo tempo em que procuraram registrá-la, acabaram por naturalizá-la, e, até mesmo, estetizá-la. Essas representações, como as figuras femininas que estamos vendo aqui, revelam profundas ambiguidades. Se, por um lado, denunciam certos aspectos da escravidão, por outro, transformam sofrimento em objeto estético. E, o mais grave, silenciam a dimensão subjetiva da violência. Quem eram essas mulheres? Mais do que suas classes sociais ou suas funções, interessa saber: quais eram seus nomes?

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