Terreiro de João Alabá

João Alabá — cujo nome iorubá é alàgbà, “chefe do culto de Egungun” ou “pessoa venerável de respeito” — foi um dos mais prestigiados babalorixás do Rio de Janeiro, figura cuja importância transcende as fronteiras do sagrado para alcançar o âmago da formação cultural carioca. Nascido na Nigéria, de origem nagô, João Alabá chegou ao Rio de Janeiro integrado a uma onda migratória de lideranças africanas religiosas que buscavam estabelecer suas comunidades nas terras brasileiras. Sua trajetória se inscreve no contexto mais amplo do êxodo baiano, movimento que, entre meados do século XIX e início do XX, transferiu para a então capital federal diversas linhagens espirituais originadas em Salvador.

Por volta de 1886, o babalaô Bamboxê Obitikô — nascido no reino iorubá de Oyó e notável figura nas tradições de matriz africana — viajou da Bahia para o Rio de Janeiro em companhia de Obá Sanyá. Essa dupla fundou um terreiro no bairro da Saúde, localizado na Zona Portuária, precisamente na rua Barão de São Félix. Quando Bamboxê retornou à Bahia para continuar seus trabalhos religiosos, a responsabilidade de manter vivo o axé (ou àṣẹ, a energia e força vital) da casa foi entregue a João Alabá, que era devoto de Omolu, orixá das doenças, da transformação e da cura.

Local aproximado do Terreiro de João Alabá. Na rua Barão de São Félix 174. Na imagem, logo abaxo, a Central do Brasil.

Instalado no número 174 da rua Barão de São Félix, o terreiro tornou-se rapidamente um centro irradiador das tradições de matriz africana na cidade do Rio de Janeiro. Sua localização estratégica no coração da Pequena África — a região da Zona Portuária, assim denominada pelo sambista Heitor dos Prazeres, que abrangia os bairros Saúde, Gamboa e Santo Cristo — garantiu-lhe uma influência que extrapolava os limites meramente religiosos. Ali, na proximidade do terminal da Estrada de Ferro Central do Brasil, convergiam trabalhadores portuários, ex-escravizados, comerciantes e figuras importantes da vida cultural carioca.

A importância do terreiro não repousava apenas em seus rituais sagrados, mas na estrutura comunitária que congregava. A casa funcionava como espaço de socialidade, acolhimento e preservação de saberes ancestrais trazidos da África Ocidental. Nela se encontravam Tia Ciata — a célebre Hilária Batista de Almeida, nascida em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano — que ocupava a posição de Iaquequerê (Mãe Pequena), função essencial que fornecia suporte ao babalorixá. Outras filhas e filhos de santo notáveis circulavam por aquele espaço sagrado, incluindo Tia Amélia do Aragão, mãe do compositor Donga, Tia Perciliana, mãe de João da Bahiana, além de Tia Mônica, Tia Bebiana, Tia Carmem, Tia Gracinda e Tia Sadata.

A casa onde funcionava o terreiro não existe mais, foi demolida para as obras do Terminal Rodoviário Américo Fontenelle, mas o simbolismo daquele lugar permanece vivo na memória coletiva das comunidades de terreiro como símbolo de resistência e continuidade.

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