Na marcha da irreverência

Chiquinha Gonzaga compõe “Ó Abre Alas”, considerada a primeira marchinha carnavalesca da história.

Chiquinha Gonzaga – Abre alas

O ritmo é acelerado e os versos são simples. O compasso binário envolve o canto de 2 a 4 estrofes em um refrão que gruda que nem chiclete. A levada fica por conta da percussão rítmica dos surdos, caixas e pandeiros, que marcam o tempo certo para a entrada dos metais, numa apropriação debochada daquela cadência tão associada às bandas marciais e às paradas militares. “Alô, Alô, Gilmar / Eu tô em cana / Vem me soltar”, cornetou, no início de 2018, o conhecido compositor de marchinhas João Roberto Kelly.

As marchinhas são tão marcantes no imaginário carioca que uma delas se tornou o hino da cidade. A marcação da caixa acompanhada do trompete serve como abertura: “Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil”. Composta originalmente para um concurso de músicas de carnaval promovido em 1935, a canção de Antônio André de Sá Filho tornou-se “marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro” em 1960, através de uma lei promulgada pelo governador do então estado da Guanabara, Carlos Lacerda. A partir daí, concretizou-se como um dos maiores símbolos da relação visceral que existe entre a cidade e a grande festa do carnaval.

Mas as marchinhas também são um gênero que se intromete nas questões do seu tempo. Quase sempre emitem uma opinião ou um comentário sobre os acontecimentos do cotidiano, do comportamento ou da vida política nacional. Meio pretexto, meio testemunho, suas letras fazem farto uso da sátira, do trocadilho, do subentendido, do nonsense. Composta por Chiquinha Gonzaga para o cordão Rosa de Ouro em 1899, “Ó, abre alas!” é considerada a primeira marchinha carnavalesca na história do Brasil. Desde então, a imagem de algo que passa, que chega ou que vai – como todo bloco de rua – tornou-se uma das alegorias mais recorrentes nesse tipo de canção.

Foi assim, por exemplo, em 1950, quando a voz inconfundível de Otávio Henrique de Oliveira, o Blecaute, cravou um dos maiores clássicos do carnaval, com os versos “Chegou o general da banda êê…/ Chegou o general da banda ê…a!”. Tudo para fazer troça da hierarquia na caserna e de seu grau militar mais elevado, como mandam o figurino e a tradição brincalhona das marchinhas, que ainda hoje animam o carnaval de rua carioca. Quase 70 anos depois que Blecaute se fantasiou de general pela primeira vez, aliás, o Bloco do Barbas, que desfila pelo bairro de Botafogo, retoma o tema, fazendo chacota com o cacoete militar do novo presidente da República. Seu enredo, em 2019, é: “Continência no Barbas só pro general da banda”.