Os Mantos Tupinambá
Confeccionados principalmente com penas vermelhas de guará (Eudocimus ruber), essas vestimentas cerimoniais possuíam profundo valor simbólico, espiritual e político dentro da cosmovisão tupinambá — além, claro, de sua dimensão estética.

Manto Tupinambá que estava no acervo do Nationalmuseet, Dinamarca, devolvido ao Brasil em 2024. Ele mede 1,2 m de altura e 60 cm de largura.
Na sociedade tupinambá, o manto não era uma peça de uso cotidiano. Sua confecção exigia conhecimento técnico especializado, tempo e acesso a materiais raros, o que o tornava um objeto associado a rituais, lideranças e momentos de grande importância coletiva. O uso do manto estava relacionado a cerimônias que envolviam guerra, alianças, funerais e práticas espirituais, funcionando como um mediador entre o mundo humano e o mundo dos espíritos. Na cosmovisão tupinambá, as penas — especialmente as vermelhas — estavam ligadas à força vital, à transformação e à capacidade de trânsito entre diferentes planos de existência.

O Manto sento utilizado em cerimônia religiosa tupinambá. Desenho de Theodore de Bry para o livro de Hans Staden, 1552.
O manto também expressava a relação dos tupinambás com os animais, a floresta e os ancestrais. Ao vestir o manto, o corpo humano era simbolicamente transformado, incorporando qualidades espirituais e cosmológicas associadas às aves. Dessa forma, o artefato não pode ser compreendido apenas como um objeto material, mas como um elemento vivo da cultura, da memória e da espiritualidade indígena.
Com a chegada dos europeus ao território que viria a ser chamado de Brasil, muitos mantos tupinambás foram retirados de seus contextos originais, tomados como peças pitorescas de um mundo novo que os brancos desconheciam e destratavam. Cronistas, missionários e viajantes dos séculos XVI e XVII levaram essas peças para a Europa, onde passaram a integrar coleções privadas e, posteriormente, acervos de museus etnográficos. Esse deslocamento ocorreu em um contexto de violência colonial, expropriação cultural e desestruturação das sociedades indígenas, resultando na perda de objetos fundamentais para a continuidade de suas tradições.

Um nobre europeu segura um papagaio e usa um manto Tupinambá (segundo da esquerda para a direita) na procissão “Rainha da América”, aquarela sobre pergaminho, século XVI, autor desconhecido.
Durante séculos, os mantos tupinambás permaneceram fora do Brasil, especialmente em museus europeus. No entanto, nas últimas décadas, intensificaram-se os debates internacionais sobre a restituição de bens culturais retirados de povos indígenas durante o período colonial. Nesse contexto, ganhou destaque o processo de devolução de um dos mantos tupinambás ao Brasil, anteriormente sob a guarda de instituições europeias.
O retorno do manto tupinambá, hoje integrado ao acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, representa um marco simbólico e político de grande relevância. Mais do que a recuperação de um objeto histórico, trata-se do reconhecimento do direito dos povos indígenas à sua memória, à sua cultura e à sua herança espiritual. A devolução também dialoga com os esforços de reconstrução do Museu Nacional após o incêndio de 2018, reafirmando seu papel como espaço de preservação, pesquisa e valorização das culturas indígenas brasileiras.

Manto Tupinambá saudado por indígens do povo Tupinambá em setembro de 2024, Museu Nacional. Foto de Leo Otero (MP).
Os mantos tupinambás se constituem como elementos fundamentais para compreender a resistência indígena, a continuidade das cosmologias originárias e os desafios contemporâneos relacionados à reparação histórica e à justiça cultural. Sua guarda por instituições brasileiras, em diálogo com os povos indígenas, contribui para a construção de uma narrativa histórica mais plural, crítica e comprometida com a valorização dos saberes originários.
